O Brasil registrou um recorde de empreendimentos com certificação sustentável em 2024, segundo o GBC (Green Building Council). A organização é responsável pela emissão, entre outras certificações, da LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), uma das mais tradicionais do mundo no setor.

No total, 280 construções receberam alguma certificação do GBC no ano passado. Em 2023, o número foi de 239 e, em 2022, 219.
Em 2025, entre janeiro e setembro, 141 empreendimentos foram certificados. A expectativa é que esse número cresça. De acordo com projeção da empresa de inteligência Markets & Data, o mercado brasileiro de construções sustentáveis vai passar de US$ 34,3 bilhões em 2024 para US$ 67,9 bilhões em 2032, um aumento de 98%.

De acordo com Enzo Tessitore, diretor de Marketing e Operações do GBC Brasil, os empreendimentos sustentáveis de 2025 somam cerca de 3 milhões de metros quadrados. Com esses números, a instituição totaliza 2.987 empreendimentos registrados e 1.447 já certificados, chegando a 75 milhões de metros quadrados em cerca de 350 municípios.

“O avanço aparece em bairros, escolas, edifícios corporativos, centros logísticos, data centers, hospitais e, mais recentemente, moradias, da alta renda à habitação social. Esse mosaico diz muito sobre a maturidade do setor: a sustentabilidade deixou de ser um nicho tecnológico ou uma vitrine comercial. Hoje ela aparece onde a cidade real acontece” , diz Tessitore.

No agregado das certificações do GBC Brasil, edifícios sustentáveis apresentam cerca de 25% de redução em energia e 40% em água. No braço residencial, os dados mais recentes do GBC mostram 31% de economia de energia, 47% de redução no consumo de água e 92% de resíduos desviados de aterros sanitários.

O papel das certificações

As certificações mais populares no país são a LEED, a francesa AQUA-HQE e a Edge, administrada pela International Finance Corporation, um braço do Banco Mundial. Elas são ferramentas que avaliam diversos indicadores das obras, de materiais à cadeia logística, avaliando boas práticas no uso de energia, água, resíduos, conforto e materiais com menor impacto ambiental, dentre outros.

Para Tessitore, o que faz com que o sistema funcione é a verificação independente das propostas apresentadas pelas construtoras, o que confere credibilidade para investidores, operadores e moradores. “Reduz risco, aumenta previsibilidade e protege valor”, explica.

As certificações têm evoluído para atender novas demandas. A LEED, por exemplo, em sua atualização v5, incorpora redução de carbono, melhora de saúde e qualidade de vida e incentivo à resiliência climática aos seus parâmetros.

Tendências e bons exemplos

A empresa GPAA, sediada em Belo Horizonte, trabalha com construções sustentáveis há pelo menos três décadas e foi um dos primeiros escritórios brasileiros de arquitetura e urbanismo certificados pelo Sistema B, que reconhece empresas com compromissos ambientais e sociais no mundo todo.
Seus principais projetos certificados com LEED Ouro e Platina são o Memorial Brumadinho, o novo estádio do Mineirão e o edifício Aureliano Chaves, que abriga a sede do banco Inter.

Laura Penna, diretora geral do escritório, ressalta que o principal diferencial de suas construções é a integração entre soluções baseadas na natureza e novas tecnologias para otimizar recursos.

“Nós sempre incorporamos varandas, beirais e brises para sombreamento; ventilação cruzada, que são aberturas desencontradas em pontos opostos da edificação para fazer com que o ar circule e resfrie o ambiente, além de aberturas altas para permitir que o ar quente saia”, exemplifica a diretora da GPAA.

Para a economia de recursos, segundo a arquiteta, o escritório aposta em temporizadores de torneira, descarga em dois tempos, alta permeabilidade dos jardins do entorno e uso de materiais e acabamentos locais, que diminuem o trajeto de transporte e reduzem a pegada de carbono da obra.

E, entre as novas soluções trazidas pelo escritório, estão madeira engenheirada (que além de ser reflorestada, captura carbono), sistemas de vigas frias (que gastam menos energia para o conforto térmico), vedação robusta e cobogós (que permitem a passagem de luz e ventilação).

Os mesmos recursos vêm sendo aplicados pela GPAA em edifícios residenciais. Seu prédio em construção, o Edifício Jardim, na capital mineira, já tem o selo Green Building, e incorpora um jardim por andar, além de ser 100% conectado à rua, sem uso de grades ou muros, ressalta a diretora.

Em Curitiba, a construtora Laguna também se destaca pelas construções sustentáveis, com 22 empreendimentos com esse perfil no portfólio, sendo 16 entregues, quatro em construção e dois em fase de lançamento.

O diretor geral André Marin destaca o Iguaçu 2820, prédio corporativo na capital paranaense, que recebeu LEED Gold e tem uma “fachada que valoriza a entrada de luz natural, reduzindo a necessidade de iluminação artificial, enquanto os sistemas do empreendimento priorizam eficiência energética e conforto térmico, com uso de materiais regionais e de baixo impacto”

Outro de seus prédios também certificado como LEED Gold é o residencial LLUM Batel, que obteve “cerca de 15% de redução no consumo de energia e 20% de economia no uso de água em comparação aos parâmetros de referência”, diz Marin, “fruto do uso de materiais reciclados e regionais, sistemas de automação nas áreas comuns e infraestrutura para recarga de veículos elétricos”. Além disso, a construtora tem sistemas de reaproveitamento de água da chuva e geração de energia solar.

Segundo o GBC, a integração entre arquitetura, engenharia e operação desde o início da obra tem feito com que mais edifícios alcancem nível Ouro e Platina na LEED sem acréscimo de custo de construção.

Políticas públicas

A demanda por construções sustentáveis ainda é impulsionada por incorporadoras e fundos imobiliários focados em escritórios de alto padrão (triple A), shoppings centers e edifícios de uso misto.

Mas, de acordo com Renato Salgado, engenheiro ambiental e professor da Pós-Graduação em Arquitetura Sustentável e Tecnologias Verdes da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), o setor residencial também começa a aquecer, ainda que “de forma tímida”.

Para Nilson Sarti, vice-presidente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), alguns instrumentos têm ajudado a derrubar a barreira do preço que prédios e construções residenciais enfrentam.

“Um exemplo é o programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, que está trabalhando com muitos desses critérios de sustentabilidade. Em empreendimentos de baixa renda, é possível reduzir o condomínio com eficiência energética”, explica Sarti, citando a instalação de placas solares em unidades habitacionais do programa.

O vice-presidente destaca outras iniciativas públicas que ajudam a impulsionar o mercado, como o IPTU Verde, que reduz a taxação de quem adota sustentabilidade em seu imóvel, e a Outorga Verde, que beneficia construtoras e aumenta a capacidade produtiva.

No entanto, para Salgado, as políticas públicas ainda são fragmentadas. “E existe uma dificuldade real de acesso a financiamento verde nos pequenos e médios projetos. Grandes empreendimentos conseguem acessar green bonds e linhas especiais com mais facilidade; já o empreendedor menor tem dificuldade de traduzir as vantagens em crédito mais barato ou em valorização efetiva do ativo” explica o professor.

Por isso, os especialistas dizem que incentivos mais concretos a construções sustentáveis – sejam financeiros, regulatórios ou fiscais são necessários para aumentar a adesão.

Nesse sentido, Sarti vê como positiva a iniciativa lançada recentemente pela Caixa Econômica Federal, da qual a CBIC é parceira, chamada
“Coalizão pela Habitação Net-Zero 2050”, que quer descarbonizar a cadeia habitacional brasileira nos próximos 15 anos por meio de parcerias entre governos, empresas e sociedade civil.

 

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por Thaís Matos, em uol.com.br

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