Neuroestética, biofilia e saúde planetária: projetar para todos os sentidos

Publicado em 14 . 04 . 2026

Durante muito tempo, o debate sobre sustentabilidade no ambiente construído se concentrou, com razão, em energia, água, materiais e emissões. Essa agenda continua central. Mas ela já não basta sozinha. À medida que o setor amadurece, cresce também a necessidade de fazer uma pergunta mais simples (e talvez mais difícil): que tipo de experiência os nossos edifícios oferecem para quem vive, trabalha, aprende ou se recupera dentro deles?

Foi a partir dessa provocação que a palestra “Neuroestética, Biofilia e Saúde Planetária integradas”, apresentada por Eleonora Zioni na Greenbuilding Brasil, trouxe uma contribuição importante para o debate. Não para substituir os critérios técnicos da sustentabilidade, mas para ampliá-los. A mensagem de fundo é clara: um edifício sustentável não deveria apenas consumir menos. Ele deveria também fazer mais bem.

O ambiente não é neutro

Arquitetos e urbanistas sabem disso intuitivamente há muito tempo. O ambiente afeta humor, atenção, memória, concentração, relaxamento e percepção de segurança. A novidade é que hoje já existe um campo crescente de pesquisa tentando entender isso com mais rigor.

A neuroestética entra justamente aí. Trata-se de uma disciplina emergente da neurociência cognitiva que investiga as bases biológicas das experiências estéticas. Em outras palavras, como formas, imagens, texturas, sons, luz e composições espaciais afetam o cérebro e a mente. Não se trata de “embelezar” o espaço no sentido superficial, mas de compreender que a experiência sensorial também é parte da saúde.

Esse ponto é particularmente relevante num momento em que passamos a maior parte do tempo em ambientes internos. Se o espaço construído organiza a vida contemporânea, ele também participa, direta ou indiretamente, da nossa regulação emocional e fisiológica.

A biofilia não é ornamento

O segundo eixo da palestra retoma um conceito que ganhou força nos últimos anos, mas que muitas vezes ainda é mal interpretado: biofilia. Em sua definição mais interessante, biofilia não é apenas colocar plantas num lobby ou abrir um jardim vertical na fachada. Ela parte da ideia de que existe uma afinidade inata entre seres humanos e natureza. Uma necessidade de contato, direto ou indireto, com processos vivos, materiais naturais, ciclos ambientais e estímulos que remetam ao mundo natural.

E isso tem implicações importantes para o projeto. A biofilia não deve ser tratada como um recurso decorativo, mas como uma estratégia de reconexão. Luz natural, ventilação, vistas para o exterior, presença de água, texturas orgânicas, biomorfismo, sombreamento, materiais honestos e até imagens da natureza podem contribuir para esse efeito.

O ponto mais interessante aqui é que nem sempre essa conexão precisa ser literal. A palestra mostrou como representações indiretas da natureza — fotografias, vídeos, arte, composições visuais, sons e atmosferas — também podem gerar respostas positivas. Em contextos onde a natureza não está disponível de forma plena, esse recurso pode ser mais do que um substituto: pode ser uma forma de ampliar o acesso a uma experiência restaurativa.

Saúde planetária começa no corpo

Talvez a contribuição mais potente da palestra tenha sido conectar essas duas frentes (neuroestética e biofilia) a uma terceira, mais ampla: a saúde planetária.

O conceito é simples, mas exigente. Não existe saúde individual sustentável em um planeta adoecido. A qualidade do ar, da água, do solo, da biodiversidade e dos sistemas urbanos afeta diretamente a saúde humana. A equação deixa de ser apenas edifício eficiente e passa a ser equilíbrio entre saúde individual, saúde pública e saúde do planeta.

Essa mudança de escala é importante porque tira a sustentabilidade do campo abstrato. Em vez de falar apenas em metas climáticas distantes, ela reposiciona o debate na experiência concreta: o que respiramos, o que bebemos, o que ouvimos, como dormimos, como nos recuperamos, como nos sentimos dentro dos espaços.

Isso também ajuda a qualificar uma confusão comum. Sustentabilidade não é apenas reduzir dano ambiental. É construir condições de vida mais saudáveis. E isso exige olhar para os sentidos humanos com mais seriedade.

Projetar para todos os sentidos

Um dos trechos mais fortes da apresentação foi justamente o deslocamento do “conforto ambiental” para o “conforto humano”. A diferença parece pequena, mas não é.

Quando falamos em conforto ambiental, normalmente pensamos em desempenho térmico, acústico e lumínico. Tudo isso é essencial. Mas o conforto humano vai além: envolve experiência visual, percepção olfativa, tato, ergonomia, memória, ritmo e sensação de pertencimento. Em outras palavras, envolve o modo como o corpo inteiro lê o ambiente.

Esse deslocamento é útil porque nos obriga a sair de uma arquitetura orientada apenas por indicadores técnicos e voltar a perguntar o que o espaço comunica, induz e sustenta. Não basta cumprir norma. É preciso entender como o ambiente afeta quem o ocupa.

Essa abordagem é especialmente relevante em hospitais, escolas, ambientes de trabalho e espaços de permanência prolongada. Mas, no fundo, vale para qualquer tipologia. Um bom projeto não deveria apenas resolver fluxos e sistemas. Deveria também produzir uma experiência espacial coerente com a saúde e o bem-estar de quem o vive.

Entre a técnica e a sensibilidade

Nada disso significa abandonar ferramentas objetivas. Ao contrário. A palestra foi cuidadosa ao reforçar a importância de medir impacto, usar certificações, adotar referências técnicas e projetar com responsabilidade ambiental. O argumento não é “menos técnica”. É “mais integração”.

A arquitetura sustentável do futuro não será apenas aquela que reduz consumo de energia e água, embora isso continue sendo indispensável. Ela será também aquela que souber articular desempenho com percepção, eficiência com experiência, saúde planetária com saúde humana.

Esse talvez seja o ponto mais atual da discussão: a técnica continua central, mas já não pode operar sozinha. Projetar bem, hoje, exige lidar com aquilo que é mensurável e com aquilo que é sentido.

O que isso muda no projeto

Na prática, essa conversa aponta para uma arquitetura mais atenta às camadas invisíveis do ambiente. Não só o que o edifício faz, mas o que ele provoca. Não só quanto ele consome, mas como ele afeta. Não só o quanto ele reduz impacto, mas o quanto ele contribui para regenerar relações entre corpo, espaço e natureza.

Isso muda o desenho de interiores, a escolha de materiais, a relação com a luz, a composição das vistas, o papel da arte, o uso de tecnologias digitais e a própria noção de ambiência. Também muda a forma como pensamos sustentabilidade: menos como checklist, mais como qualidade relacional do espaço construído.

No fim, talvez a provocação mais útil seja esta: um edifício realmente sustentável precisa ser bom para o planeta, mas também precisa ser bom para as pessoas. E isso começa quando deixamos de projetar apenas para o desempenho dos sistemas e passamos a projetar, de fato, para os sentidos humanos.

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Conteúdo criado com base na palestra “Neuroestética, Biofilia e Saúde Planetária integradas”, apresentada por Eleonora Zioni, da Asclépio Consultoria, na Greenbuilding Brasil.

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