Existe uma distorção recorrente na forma como o mercado encara certificações ambientais. Muitas vezes, elas aparecem como objetivo final, algo a ser atingido depois que o projeto já está definido. Um checklist a ser cumprido, um selo a ser conquistado. Essa lógica inverte o papel da certificação.
No caso apresentado por Elisabeth Reis, fundadora da Pallas Athena Arquitetura e Engenharia, o movimento é outro. A certificação LEED não entra no fim do processo. Ela organiza o processo. Não como restrição, mas como diretriz que orienta decisões desde o início, conectando projeto, obra e operação.
Ao longo da discussão, fica claro que não se trata apenas de cumprir critérios, mas de estruturar um raciocínio de projeto que reduz impacto, melhora desempenho e, ao mesmo tempo, responde a demandas reais do cliente e dos usuários. Como a própria Elisabeth coloca, “a arquitetura protege o cliente” ao incorporar normas, conforto e segurança desde a concepção do edifício.
Essa mudança de abordagem desloca o papel da certificação. Ela deixa de ser validação e passa a ser ferramenta.
Grande parte dos ganhos em sustentabilidade acontece antes da obra começar. Essa é uma afirmação recorrente, mas ainda pouco incorporada na prática. No caso apresentado em sua palestra “A certificação LEED como diretriz de um projeto industrial“, ela aparece de forma concreta.
A substituição de um sistema de ar-condicionado convencional por um sistema VRF não foi uma decisão tecnológica isolada. Foi uma decisão de projeto baseada em desempenho. O sistema inicialmente previsto era insuficiente para a função do espaço, especialmente em uma área de alimentação, onde a renovação do ar deixa de ser conforto e passa a ser requisito sanitário.
A escolha do VRF resolve múltiplas questões ao mesmo tempo. Garante renovação de ar, melhora a qualidade do ambiente interno e reduz o consumo energético em até 40% em relação ao sistema tradicional. Mais do que eficiência, a decisão demonstra uma lógica de projeto orientada por desempenho, onde custo inicial, operação e impacto são analisados de forma integrada.
Esse tipo de escolha só acontece quando há domínio técnico e capacidade de articulação com o cliente. Não basta propor a solução mais eficiente. É preciso viabilizá-la.
Outro ponto relevante do caso está na forma como a sustentabilidade é tratada dentro de restrições reais. O projeto não parte de um cenário ideal. Parte de um contexto limitado, com orçamento definido, prazo curto e um escopo inicial que não incorporava essas premissas.
A incorporação da sustentabilidade acontece ao longo do processo, a partir de ajustes, negociações e priorizações. Nem tudo entra. E essa é uma parte importante da discussão.
Elementos considerados essenciais — como ergonomia, iluminação adequada, segurança e acessibilidade — são mantidos. Outros, que agregam valor, mas não são críticos naquele momento, são postergados. Essa hierarquização evita um problema comum em projetos sustentáveis: tentar fazer tudo ao mesmo tempo e comprometer a viabilidade.
A sustentabilidade, nesse caso, não aparece como excesso. Aparece como escolha.
Essa lógica também se estende ao uso de recursos hídricos. Mesmo em um contexto onde não era possível implementar sistemas completos de captação, o projeto incorpora soluções de uso racional, como torneiras temporizadas, capazes de reduzir significativamente o consumo em um ambiente com alta densidade de usuários.
O ganho não está na solução isolada, mas na consistência das decisões.
Se há um elemento que diferencia esse caso, ele não está apenas na eficiência técnica, mas na forma como o projeto incorpora o usuário final.
A discussão sobre bem-estar não aparece como complemento, mas como premissa. O espaço é pensado a partir de quem vai utilizá-lo, com atenção à ergonomia, à diversidade de usuários e à qualidade do ambiente. A inclusão não é tratada como exceção, mas como condição de projeto.
Essa abordagem se materializa em decisões que vão desde o desenho do mobiliário até a escolha de materiais e a configuração dos espaços. O ambiente deixa de ser apenas funcional e passa a ser parte da experiência do usuário.
A biofilia entra nesse contexto não como elemento estético, mas como estratégia de saúde. A incorporação de vegetação natural, especialmente em ambientes industriais fechados, busca restabelecer uma conexão que impacta diretamente o bem-estar e a qualidade do espaço. Não se trata de decorar. Trata-se de alterar a forma como o ambiente é percebido e utilizado.
Essa mudança de foco altera também a forma como o sucesso do projeto é medido. Ele deixa de ser avaliado apenas pelo cliente contratante e passa a ser validado pelo usuário.
O caso apresentado não é sobre um edifício icônico ou um investimento fora da curva. É um projeto com restrições reais, orçamento definido e prazo curto. E é justamente por isso que ele é relevante.
Ele mostra que a certificação LEED pode funcionar como estrutura de decisão, não apenas como objetivo final. Mostra que o maior impacto do projeto acontece antes da obra. E, principalmente, mostra que sustentabilidade não é uma camada adicional, mas uma forma diferente de projetar.
O setor ainda trata certificação como diferencial. O que esse tipo de projeto sugere é que ela tende a se tornar base.
_
Artigo criado com base na palestra “A certificação LEED como diretriz de um projeto industrial”, apresentada por Elisabeth Reis, fundadora da Pallas Athena Arquitetura e Engenharia.