Por que edifícios e construção ainda respondem por 37% das emissões globais?

Publicado em 01 . 09 . 2026

A eficiência energética melhorou e as certificações avançaram. Mas o mundo continua construindo em ritmo acelerado, as emissões operacionais cresceram e os materiais ainda pesam na conta. O novo relatório global do setor ajuda a explicar por quê.

Há um número que aparece há anos nas discussões sobre construção e clima: 37%.

A repetição acabou tornando o dado familiar, mas nem sempre mais compreendido.

Segundo a edição 2025–2026 do Global Status Report for Buildings and Construction, publicada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) e pela Global Alliance for Buildings and Construction (GlobalABC), edifícios e construção respondem por cerca de 37% das emissões globais de CO₂. O percentual reúne mais do que a energia consumida dentro dos prédios. Inclui também a construção e a cadeia de materiais associada ao ambiente construído.

Essa distinção importa porque as soluções são diferentes.

Uma parte das emissões acontece durante décadas de uso de um edifício: eletricidade, aquecimento, refrigeração, água quente e outros serviços energéticos. Outra já está presente antes mesmo da entrega das chaves, na extração de matérias-primas, fabricação dos materiais, transporte e construção, e continua nas reformas, substituições e no fim da vida útil.

Colocar tudo sob um único número facilita a comunicação. Para reduzir emissões, porém, é preciso abrir essa conta.

A eficiência melhorou. As emissões também subiram

O relatório traz um dado que parece contraditório à primeira vista.

Desde 2015, a intensidade energética global dos edifícios caiu 8,5%. Em outras palavras, usamos menos energia, em média, para cada metro quadrado construído.

É um avanço relevante.

No mesmo período, entretanto, as emissões operacionais aumentaram.

Em 2024, elas chegaram a 9,9 bilhões de toneladas de CO₂, alta de 1% em relação ao ano anterior e de 6,5% desde 2015. Esse indicador considera tanto as emissões diretas, como a queima de combustíveis dentro dos edifícios, quanto as indiretas associadas à eletricidade e ao calor produzidos fora deles e consumidos em sua operação.

Não há contradição.

É possível tornar cada metro quadrado mais eficiente e, ao mesmo tempo, aumentar o consumo total de energia e as emissões quando a quantidade de metros quadrados cresce ainda mais rápido.

É exatamente aí que aparece um dos grandes desafios do setor.

Mais 12,7 milhões de metros quadrados. Todos os dias

A área global de edifícios chegou a 273 bilhões de metros quadrados em 2024, crescimento de 1,7% em apenas um ano. A UNEP traduz essa expansão de uma maneira mais fácil de visualizar: são cerca de 12,7 milhões de metros quadrados adicionados diariamente ao estoque construído mundial.

Cada novo metro quadrado precisa de materiais para ser construído e, depois, de energia para funcionar.

E a demanda continuará crescendo. Urbanização, aumento populacional e necessidade de moradia e infraestrutura não desaparecerão porque o setor precisa descarbonizar.

Esse talvez seja o ponto mais importante do novo relatório.

O desafio não é escolher entre construir ou reduzir emissões. É atender a uma enorme demanda por edifícios sem reproduzir, em cada nova construção, os padrões de consumo e carbono que estamos tentando deixar para trás.

Os ganhos relativos de eficiência precisam superar a velocidade da expansão absoluta.

Até agora, isso não aconteceu.

O carbono começa antes da operação

Durante muito tempo, boa parte da discussão sobre emissões dos edifícios esteve concentrada na conta de energia.

Fazia sentido. Um prédio permanece em operação durante décadas e o consumo acumulado pode ser enorme. Eficiência energética continua sendo uma das principais alavancas disponíveis ao setor.

Mas ela não conta toda a história.

Concreto, aço, vidro, alumínio, revestimentos e dezenas de outros componentes chegam à obra carregando emissões produzidas em diferentes etapas de suas cadeias.

É o chamado carbono incorporado.

Dependendo do escopo analisado, ele inclui as emissões relacionadas à extração de matérias-primas, fabricação, transporte, construção, manutenção, substituição e destinação dos materiais ao final de sua vida útil. O relatório chama atenção ainda para outra dimensão do problema: edifícios e construção estão associados a quase metade da extração global de materiais.

Isso muda algumas perguntas de projeto.

Não basta perguntar quanto um edifício consumirá depois de pronto. É preciso perguntar quanto material será necessário para construí-lo, de onde esse material vem, quanto carbono está associado à sua produção, quanto tempo deverá durar e o que acontecerá quando precisar ser substituído.

A análise de ciclo de vida deixa de ser um exercício complementar e passa a ajudar nas decisões centrais de projeto e especificação.

Há avanços importantes. Ainda são insuficientes

Seria errado ler os números do relatório como evidência de que o setor ficou parado.

Não ficou.

Além da redução de 8,5% na intensidade energética desde 2015, o número de certificações de edifícios quase triplicou no período. A participação de fontes renováveis chegou a 17,3% da demanda energética dos edifícios em 2024. E os investimentos globais em eficiência energética alcançaram US$ 275 bilhões no ano, acumulando US$ 2,3 trilhões desde 2015.

São transformações importantes.

O problema é a distância entre o ritmo atual e o necessário.

Na trajetória de emissões líquidas zero utilizada pelo Buildings-GSR, as emissões operacionais teriam de cair das atuais 9,9 bilhões de toneladas para 4,4 bilhões de toneladas de CO₂ em 2030.

Uma redução de aproximadamente 56% em seis anos, tomando 2024 como base. Não é uma previsão do que acontecerá. É o nível indicado pelo relatório para que o setor permaneça alinhado à trajetória considerada.

A diferença entre essas duas curvas é provavelmente a melhor medida do tamanho do trabalho à frente.

Operação e materiais pedem respostas diferentes

Não existe uma única tecnologia capaz de resolver o problema.

Na operação, parte da resposta está em reduzir a demanda desde o projeto: orientação adequada, envoltórias de melhor desempenho, iluminação eficiente, equipamentos bem dimensionados e estratégias passivas que diminuam a necessidade de climatização.

Depois vêm eletrificação, geração renovável, sistemas de controle e, principalmente, acompanhamento do desempenho real.

Um edifício eficiente no modelo precisa continuar eficiente quando estiver ocupado.

Nos ativos existentes, isso coloca o retrofit em posição central. Grande parte dos edifícios que utilizaremos nas próximas décadas já está construída. Melhorar seu desempenho pode evitar consumo e emissões por muitos anos sem exigir a substituição prematura de estruturas e materiais.

Para o carbono incorporado, as decisões são outras. Menor uso de materiais, especificação baseada em dados ambientais, reuso de componentes, maior durabilidade, flexibilidade para futuras adaptações e soluções construtivas com menor intensidade de carbono precisam entrar mais cedo na discussão.

É por isso que a descarbonização dos edifícios precisa ser analisada ao longo de todo o ciclo de vida.

Medir deixa de ser opcional

Há ainda uma questão básica: não se gerencia adequadamente aquilo que não se conhece.

Um empreendimento pode ter metas ambiciosas de carbono e não saber qual foi o impacto dos materiais utilizados na obra. Pode ser projetado para consumir pouca energia e operar muito acima do previsto. Pode instalar geração renovável e não acompanhar o consumo que ela deveria compensar.

Reduzir emissões exige transformar intenções em indicadores.

Energia por metro quadrado, fontes utilizadas, emissões operacionais, carbono incorporado, consumo real, desempenho da envoltória, dados dos materiais. A lista varia conforme o empreendimento, mas a lógica é a mesma.

Certificações ajudam a organizar requisitos, métodos de verificação e evidências. Não são, por si mesmas, prova de redução das emissões globais do setor. O resultado precisa aparecer nos dados do edifício e, em escala maior, nos portfólios e cidades.

Essa diferença é importante.

Certificar é uma ferramenta. Descarbonizar é o resultado que precisa ser demonstrado.

O desafio não termina no terreno do empreendimento

Projetistas, engenheiros, fabricantes, incorporadores e operadores têm decisões importantes nas mãos. Mas dificilmente conseguirão produzir a mudança necessária trabalhando apenas projeto a projeto.

A escala depende também de códigos de construção, políticas urbanas, financiamento, compras públicas, disponibilidade de materiais de menor emissão e acesso a dados confiáveis.

O próprio relatório estima que serão necessários US$ 5,9 trilhões em investimentos até 2030, ou aproximadamente US$ 592 bilhões por ano, para avançar na trajetória indicada para os edifícios.

É aqui que a discussão sobre construção sustentável encontra política pública e mercado financeiro.

Quando desempenho energético, emissões e carbono incorporado passam a ser medidos de maneira consistente, bancos, investidores, governos e proprietários conseguem distinguir melhor um ativo preparado para as próximas décadas de outro que poderá exigir adaptações caras no futuro.

A redução de carbono passa também a ser uma questão de risco.

O número importa. O que fazemos com ele importa mais

Dizer que edifícios e construção respondem por 37% das emissões globais de CO₂ chama atenção.

Mas repetir o percentual não reduz uma tonelada de carbono.

Sua utilidade está em mostrar onde agir.

Parte da resposta está nos edifícios que ainda serão construídos. Outra, talvez ainda maior no curto prazo, está em melhorar aqueles que já existem. Há emissões na energia consumida todos os dias e há carbono escondido nos materiais que formam paredes, estruturas, fachadas e instalações.

Os dados do novo relatório deixam uma mensagem menos simples, mas muito mais útil que o número isolado.

O setor avançou. Tornou-se mais eficiente, ampliou certificações, investiu mais e incorporou fontes renováveis. Ainda assim, a expansão física do ambiente construído e a intensidade de carbono da energia e dos materiais mantêm as emissões em níveis incompatíveis com a trajetória necessária.

Isso coloca uma responsabilidade particular sobre cada novo metro quadrado.

O mundo continuará construindo.

A questão é quanto carbono precisará construir junto.

Referências principais

  • United Nations Environment Programme (UNEP) e Global Alliance for Buildings and Construction (GlobalABC). Global Status Report for Buildings and Construction 2025–2026. 10ª edição, maio de 2026. Principal referência para emissões, intensidade energética, área construída, renováveis, certificações e investimento.
  • United Nations Environment Programme. Key Messages: Buildings-GSR 2025–2026. Síntese dos principais indicadores do relatório, incluindo a participação do setor nas emissões globais de CO₂ e na extração de materiais.
  • United Nations Environment Programme. Climate action key to affordable housing, but buildings decarbonisation stalls. 19 de maio de 2026. Comunicado de lançamento da 10ª edição do relatório e fonte para os dados sobre expansão diária da área construída, investimentos e evolução dos principais indicadores.
  • GBC Brasil. Projeto Global: NDC Scorecard for Sustainable Buildings. Referência para a participação brasileira na discussão sobre políticas públicas relacionadas ao desempenho e à descarbonização dos edifícios.

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