Existe uma leitura recorrente de que obras públicas paralisadas são resultado de fatores externos. Falta de recurso, mudança de governo, entraves burocráticos. Tudo isso existe. Mas essa explicação simplifica um problema que, na prática, começa muito antes.
O dado é conhecido, mas ainda pouco enfrentado. Mais da metade das obras públicas federais estão paralisadas. E as causas não são imprevisíveis. Como destacou Giuseppe Henriques Gouveia Dantas, do Exército Brasileiro, “os principais motivos incluem projetos básicos deficientes, entraves contratuais, falta de recursos e dificuldades de licenciamento”. Ou seja, não é surpresa. É padrão.
A mudança mais relevante trazida pela nova Lei de Licitações não está no processo de contratação, mas na forma como o risco passa a ser tratado. A gestão de risco deixa de ser recomendação e passa a ser obrigatória.
Isso altera o ponto de partida.
Como explicou Giuseppe, “a gestão de risco deixou de ser opcional e passou a ser obrigatória em contratos públicos”. Isso significa que o risco precisa ser identificado, analisado e acompanhado desde a fase preparatória do projeto, e não apenas quando ele já se materializou na execução.
Essa mudança desloca o foco da reação para a prevenção.
O gerenciamento deixa de ser uma ferramenta de controle e passa a ser parte do próprio projeto. Identificar causas, antecipar eventos, mapear impactos e estruturar respostas deixa de ser uma camada adicional e passa a ser condição para que a obra aconteça.
Obras de engenharia são, por natureza, complexas. Envolvem múltiplas disciplinas, diferentes agentes, variáveis técnicas, ambientais e regulatórias. Tratar risco como exceção nesse contexto é ignorar a própria natureza do projeto.
A estrutura apresentada deixa isso claro. O risco precisa ser entendido em diferentes dimensões. Riscos de engenharia, erros de projeto, fatores administrativos, mudanças externas e eventos imprevisíveis fazem parte do mesmo sistema.
O que muda não é a existência do risco. É a capacidade de lidar com ele.
A matriz de risco surge como instrumento central nesse processo. Não como documento formal, mas como estrutura de decisão. Ao definir responsabilidades entre contratante e contratada, ao mapear causas, gatilhos e impactos, ela cria um nível de previsibilidade que o setor historicamente não teve.
Isso tem implicação direta. Sem clareza de responsabilidade, o risco vira disputa. Com clareza, ele vira gestão.
Se a matriz organiza o risco, a tecnologia amplia a capacidade de antecipação.
Ferramentas de análise de dados, inteligência artificial e modelagem permitem trabalhar com uma base de informação muito mais ampla do que aquela tradicionalmente disponível para o gestor. Como foi apresentado, sistemas estruturados já conseguem mapear dezenas de riscos com seus respectivos elementos, criando uma base que pode ser consultada, atualizada e aprimorada ao longo do tempo.
Nesse contexto, o papel da tecnologia não é automatizar o processo. É qualificar a decisão. Como destacou Giuseppe, essas ferramentas “permitem identificar padrões, prever problemas, apoiar decisões com base de dados”.
Isso muda o momento da ação.
O gestor deixa de reagir a um problema que já ocorreu e passa a atuar quando o risco ainda está se formando. Gatilhos, indicadores e sinais antecipam a materialização do risco, permitindo intervenção antes do impacto. O ganho não está apenas em evitar paralisações. Está em reduzir incerteza.
O que a discussão mostra é que obras paralisadas não são um desvio do sistema. São consequência de um modelo que historicamente tratou risco como algo secundário.
A nova abordagem tenta corrigir isso. Ao integrar base legal, estrutura de gestão e tecnologia, o setor começa a construir um modelo mais previsível. Não elimina o risco. Mas reduz sua capacidade de paralisar o projeto.
No fim, a mudança é menos tecnológica do que cultural.
Tratar risco como parte do projeto significa aceitar que antecipar problema é mais eficiente do que resolver depois. E, no caso das obras públicas, essa diferença define não apenas custo e prazo, mas a capacidade de entregar valor para a sociedade.
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Artigo criado com base na palestra “Inteligência Artificial aplicada à Prevenção de Obras Paralisadas no Governo Federal: Uma Abordagem Preditiva de Gestão de Riscos”, apresentada por Giuseppe Dantas (Exército Brasileiro).