Quando se trata de sustentabilidade no ambiente construído, é comum pensarmos em grandes torres corporativas de alto padrão ou complexos industriais como referências primárias. No entanto, o mercado residencial nos últimos anos vem buscando por melhores padrões de conforto, desempenho e qualidade dos espaços.
Essa busca é justificável uma vez que diversos indicadores retratam o impacto das edificações residenciais quanto ao consumo de recursos naturais. Apenas em relação à energia elétrica, os imóveis residenciais representam a segunda classe que mais consome no país, atrás apenas das indústrias – mas enquanto consumo do setor industrial teve um crescimento de 5,2% nos últimos dez anos, o consumo de energia residencial cresceu 24,5% no mesmo período, segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2024.
Com a intenção de acompanhar a evolução do nível técnico das construções e os desenvolvimentos em inteligência de engenharia e arquitetura dos últimos anos, o cenário de certificações residenciais se destacou.
Felizmente as certificações existentes no mercado abrangem edificações residenciais em seus diversos formatos, inclusive condomínios horizontais. Além disso, o processo de certificação deve ser visto como uma interferência positiva para os empreendimentos, especialmente ao envolver diversas áreas da sustentabilidade, tanto dentro do canteiro de obras quanto nas etapas projetuais e de gestão.
Sendo assim, desde as conversas iniciais onde é desenvolvido um diagnóstico prévio, é necessário levar em consideração todas as especificidades de cada empreendimento, especialmente residenciais horizontais.
Justamente por envolver a expertise em diversas áreas da sustentabilidade, alguns aspectos necessitam uma abordagem diferenciada em projetos horizontais, desde parâmetros ambientais, organização do canteiro de obras, aplicabilidade de materiais mais eficientes, análises de desempenho e conforto para as unidades habitacionais e áreas comuns até a extensão do paisagismo projetado.
Áreas verdes e de paisagismo projetado são grandes diferenciais em condomínios residenciais horizontais, pois além da proximidade com esses espaços, existe uma biofilia normalmente mais expressiva do que o vertical. Ela não é uma biofilia traduzida apenas em canteiros, sacadas ou de áreas comuns, mas sim uma biofilia realmente privativa e próxima, com acesso ao quintal de cada unidade habitacional independente.
A sustentabilidade desse aspecto se potencializa quando os critérios da certificação são aplicados como o uso majoritário de espécies nativas promovendo uma biodiversidade mais expressiva e significativa.
Outra questão que atinge residenciais horizontais com particularidade é qualidade do ar interno. Em condomínios verticais, a exaustão de gases dos veículos precisa ser analisada em pavimentos de garagem, muitas vezes subsolos. Enquanto isso, condomínios horizontais normalmente possuem garagens individualizadas e abertas, acarretando uma eficiência maior no controle da poluição atmosférica, garantindo mais segurança para os ocupantes.
Ainda quando pensamos em áreas de não distúrbio, previstas pela certificação, é perceptível outra vantagem de projetos horizontais. A delimitação desses espaços, que precisam ser reservados dentro do lote, é facilitada quando o canteiro não é utilizado em sua saturação máxima, possibilitando a existência de áreas preservadas.
A amplitude dessas áreas horizontais traz algumas potencialidades para instalação de sistemas, como por exemplo, captação pluvial nas áreas de cobertura. Enquanto a grande área de captação pode ser uma forte aliada na sustentabilidade desses sistemas, ao mesmo tempo é necessária uma avaliação muito cautelosa pois também apresenta algumas dificuldades técnicas e muitas vezes financeiras.
Enquanto num edifício vertical é implementado um único sistema de captação que é sub distribuído para todas as unidades habitacionais, no horizontal cada unidade independente precisa ter o seu próprio sistema.
A consideração do investimento necessário para essas tecnologias e o porte para suas instalações podem inviabilizar a implantação de alguns deles, como por exemplo a irrigação automatizada ou aquecimento de água solar e até mesmo pontos de
abastecimento elétrico veicular nas unidades.
É importante salientar também algumas questões que nem sempre são tão óbvias durante esse processo, como por exemplo, em condomínios horizontais raramente é necessária a implementação de elevadores, que representam investimentos altos e gastos energéticos significativos para os empreendimentos verticais durante sua operação.
Ao analisar as unidades habitacionais independentes, em volumes de edificações individuais, existem benefícios como menor sombreamento de interferência, maior possibilidade de ventilação cruzada, iluminação natural e, consequentemente, uma maior eficácia também para todos os sistemas que estão agregados em cada unidade.
Esses impactos também podem ser observados na escolha de materiais, que em condomínios horizontais são aplicados em áreas privativas das unidades habitacionais. Exemplo disso são materiais de cobertura ou de fachada, que são decisivos para o desempenho e eficiência da edificação. Justamente por isso, é necessário realizar um trabalho educativo junto ao proprietário, para que não substitua ou modifique os materiais na fase de operação, mantendo a caracterização que agrega a sustentabilidade e o selo do empreendimento.
Os canteiros de obras que buscam certificação possuem algumas particularidades, começando pela necessidade de implementação de boas práticas. Essa mentalidade de sustentabilidade dentro da obra deve ser sempre acompanhada e documentada, especialmente por ser parte essencial para a eficácia das estratégias definidas anteriormente.
A adequação do canteiro para emprendimentos certificados envolve mudanças físicas no espaço, incluindo bacias de sedimentação, área de lavagem do rodado, centrais de resíduos mais robustas e fumódromo para os colaboradores. Essas estruturas também impactam os fluxos do canteiro, mais diretamente ainda quando pensamos nas diferenças entre canteiros de obras horizontais e verticais.
Condomínios verticais normalmente preveem áreas de vivência e de suporte temporárias no início da obra e com o avanço da construção, transferem essas áreas para os pavimentos consolidados. Canteiros compactos precisam desse tipo dinâmica a fim de priorizar a otimização de espaço. Enquanto isso, condomínios horizontais comumente alocam suas áreas de vivência e de suporte em espaços que permanecem “livres” durante a maior parte da construção, como circulações, espaços entre unidades habitacionais e até mesmo onde serão construídas as áreas comuns do condomínio.
Outro fator importante é que canteiros são dinâmicos e a extensão dos lotes de condomínios horizontais deve ter acesso fácil, tanto para a entrada de materiais quanto para a execução de serviços, em todos os momentos. Sendo assim, a necessidade de minicentrais espalhadas ao longo do canteiro se faz necessária. Todas essas variáveis espaciais implicam em soluções e logísticas muito interessantes, exigindo uma adaptabilidade significativa no uso do canteiro ao longo da obra.
A ideia que fica do processo de certificação é realmente a criação de novos parâmetros de sustentabilidade, para toda a cadeia desde a incorporação, construção, equipes de projetistas, consultorias, indústria e fornecedores, chegando de maneira efetiva e verdadeiramente sustentável no cliente final.
Especialmente quando é perceptível um crescimento de empreendimentos residenciais dentro desse cenário de certificações, é essencial compreender mais as particularidades e aplicabilidades para cada empreendimento.
Afinal, espaços residenciais são os principais moduladores e potencializadores não só da qualidade construtiva ofertada no mercado, mas também da qualidade de vida para os futuros moradores desses espaços.
Obviamente, essa evolução só é possível graças a um processo compartilhado, pois é essa conexão entre as obras e as certificações que realmente atesta a sustentabilidade na sua forma mais ampla e integrativa, também nos condomínios horizontais residenciais.
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Por Ideal Ambiental, empresa membro do GBC Brasil