O espaço institucional do Green Building Council Brasil (GBC Brasil) na Bienal de Arquitetura, assinado pelo escritório Marcela Penteado Arquitetos, parte de uma ideia central: o labirinto como organismo. Mais do que forma, o labirinto é entendido como um sistema vivo, onde relações se constroem, se tensionam e se revelam ao longo do percurso. Assim como em um ecossistema, não há leitura imediata do todo, mas uma compreensão que emerge da interação entre partes, fluxos e camadas invisíveis.
Construído em papelão ondulado com 60 cm de altura — material leve, reciclável e de baixo impacto ambiental — o projeto se configura como um campo contínuo que envolve o visitante. Ao percorrê-lo, o corpo ativa o espaço, que reorganiza a percepção. O percurso deixa de ser deslocamento e passa a ser leitura.
Nesse contexto, o labirinto se aproxima das lógicas das edificações sustentáveis. Assim como em um ecossistema natural, as construções certificadas resultam de uma rede de decisões interdependentes, metodologias, tecnologias e estratégias integradas. Não há protagonismo isolado, mas equilíbrio entre sistemas.
No interior desse campo, as maquetes surgem como expressões dessa rede, revelando as relações que sustentam o desempenho das edificações: fluxos de energia, ciclos da água, escolhas materiais e condições de conforto em constante ajuste ao ambiente.
A escolha do papelão reforça essa lógica, remetendo a ciclos, reaproveitamento e racionalidade, princípios que estruturam tanto os ecossistemas naturais quanto as práticas do green building. Mais do que apresentar dados, o espaço propõe uma mudança de percepção. Ao atravessar o labirinto, o visitante experimenta a complexidade invisível que sustenta a arquitetura contemporânea, onde projetar é, sobretudo, compreender relações.
Para Marcela Penteado, “a sustentabilidade está intrinsecamente ligada à arquitetura, na valorização da iluminação e ventilação natural e em escolhas que conciliam forma, desempenho e impacto. Projetar hoje é compreender essas relações e transformar complexidade em espaços que promovem conforto, saúde e qualidade de vida”.
Ao transformar a lógica dos sistemas em experiência espacial, o espaço do GBC Brasil posiciona a arquitetura como mediadora entre ambiente e construção, reforçando seu papel na construção de futuros mais equilibrados
O projeto parte de uma aproximação com os labirintos de Richard Serra e com as investigações de Michelangelo Pistoletto, onde o espaço não se impõe de forma imediata, mas se constrói na relação, no deslocamento e no tempo. Há uma recusa da visão total — o entendimento surge aos poucos, à medida que o corpo atravessa.
A partir dessa leitura, o escritório Marcela Penteado Arquitetos desloca o labirinto para o campo da ecologia. Não como forma, mas como sistema: um conjunto de relações em constante ajuste, onde nada atua de maneira isolada. Essa condição ecoa diretamente as premissas do GBC Brasil, em que arquitetura, ambiente e tecnologia se articulam como partes de um mesmo organismo. O labirinto, então, não organiza apenas o espaço — ele revela uma lógica. A de que projetar hoje é lidar com interdependências, onde cada decisão reverbera no todo.
COLABORADORES
EQUIPE MARCELA PENTEADO ARQUITETOS:
JULIANA ROCHA, ANA CECILIA PAIXÃO, NICOLE MENACHO, MARIA ANTONIA PUCCI, MILEIDE
HOFFMAN E EDUARDO PONCE
MAQUETES:
AFLALO & GASPERINI