Por muito tempo, risco climático foi tratado como “tema de longo prazo”. Algo que importava, mas que não entrava de verdade na planilha do dia a dia. Essa fase está ficando para trás. Há sinais claros de que o sistema financeiro começa a colocar preço (e, portanto, consequência) em ativos, empresas e setores que seguem operando como se clima fosse detalhe.
Um estudo recente do Banco Central Europeu ajuda a ilustrar essa virada com um exemplo bem direto: no mercado de recompra (repo), usado por bancos para gerir liquidez de curtíssimo prazo, instituições mais expostas a emissões financiadas passam a pagar um “prêmio” para captar recursos. Em média, um aumento de um desvio padrão nessa exposição se associa a taxas de repo 7% a 12% mais altas. E isso aparece justamente em um mercado que costuma ser percebido como um dos mais “seguros” e padronizados. Ou seja: se até ali o carbono está entrando na conta, é porque o assunto deixou de ser periférico.
Tem tudo a ver. Edifícios são, ao mesmo tempo, ativos físicos (expostos a calor, chuva extrema, enchentes, interrupções de energia, degradação acelerada) e ativos financeiros (que dependem de crédito, seguro, taxa de juros, avaliação e apetite de investidores).
Quando o mercado passa a precificar risco climático, ele está fazendo uma pergunta simples, mesmo que com linguagem sofisticada:
Esse ativo vai performar bem (e com previsibilidade) num mundo mais quente, mais volátil e mais caro para quem emite?
É aqui que a construção civil entra como protagonista. Boa parte do risco físico mora no ambiente construído: onde se inunda, onde superaquece, onde falha infraestrutura. E boa parte do risco de transição também: energia consumida, materiais escolhidos, emissões incorporadas, operação ineficiente que vira custo recorrente e, no limite, vira “desconto” no valor do imóvel.
Em outras palavras: clima deixa de ser debate e vira custo de capital.
O ponto mais interessante da mudança não é o número em si (7% a 12%). É o mecanismo. O estudo mostra que a exposição ao risco de transição, medida por emissões financiadas, se traduz em uma penalização no preço da liquidez. E isso tende a se amplificar em momentos de estresse.
A tradução para o mundo imobiliário é direta: projetos que medem, comprovam e gerenciam desempenho ficam mais fáceis de financiar, operar e segurar. Projetos que não fazem isso começam a parecer uma aposta. E aposta, em finanças, sempre custa mais caro.
Por isso, o debate sobre construções sustentáveis evoluiu. Ele deixou de ser “o que é o certo a fazer” e passou a ser “o que é racional fazer” quando se quer proteger valor no tempo.
Existe um traço importante no Brasil: a sustentabilidade na construção nasceu muito puxada pelo setor privado e pelas melhores práticas do mercado. Isso tem um efeito colateral positivo: quando a régua sobe, ela sobe com foco em execução, em canteiro, em operação e em verificação.
É por isso que certificações e processos de terceira parte ganham relevância num cenário em que o capital quer previsibilidade. Construção é, por definição, um sistema complexo: envolve projeto, obra, fornecedores, operação, comportamento do usuário. Quando você coloca tudo isso dentro de um método comparável e auditável, você reduz assimetria de informação. E reduzir assimetria é o primeiro passo para reduzir risco.
Não é sobre “ter um selo”. É sobre criar um caminho em que desempenho vira evidência. E evidência vira confiança.
Quando falamos em risco climático aplicado à construção, dá para dividir em três dimensões bem concretas:
Quando o mercado financeiro começa a precificar emissões financiadas em operações de curtíssimo prazo, ele está sinalizando algo maior: o clima está deixando de ser “tema ESG” e virando componente de estabilidade, liquidez e custo de dinheiro.
Se eu tivesse que resumir em uma frase: medir e comprovar virou estratégia de competitividade.
Para o setor da construção, isso se traduz em ações objetivas:
No fim, o mercado vai continuar fazendo o que sempre fez: premiar quem reduz incerteza.
A diferença é que agora a incerteza tem nome e sobrenome: risco climático.
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por Enzo Tessitore, GBC Brasil