Mercados começam a precificar o risco climático, e a construção civil está no centro dessa conta

Publicado em 22 . 01 . 2026

Por muito tempo, risco climático foi tratado como “tema de longo prazo”. Algo que importava, mas que não entrava de verdade na planilha do dia a dia. Essa fase está ficando para trás. Há sinais claros de que o sistema financeiro começa a colocar preço (e, portanto, consequência) em ativos, empresas e setores que seguem operando como se clima fosse detalhe.

Um estudo recente do Banco Central Europeu ajuda a ilustrar essa virada com um exemplo bem direto: no mercado de recompra (repo), usado por bancos para gerir liquidez de curtíssimo prazo, instituições mais expostas a emissões financiadas passam a pagar um “prêmio” para captar recursos. Em média, um aumento de um desvio padrão nessa exposição se associa a taxas de repo 7% a 12% mais altas. E isso aparece justamente em um mercado que costuma ser percebido como um dos mais “seguros” e padronizados. Ou seja: se até ali o carbono está entrando na conta, é porque o assunto deixou de ser periférico.

O que isso tem a ver com edifícios?

Tem tudo a ver. Edifícios são, ao mesmo tempo, ativos físicos (expostos a calor, chuva extrema, enchentes, interrupções de energia, degradação acelerada) e ativos financeiros (que dependem de crédito, seguro, taxa de juros, avaliação e apetite de investidores).

Quando o mercado passa a precificar risco climático, ele está fazendo uma pergunta simples, mesmo que com linguagem sofisticada:

Esse ativo vai performar bem (e com previsibilidade) num mundo mais quente, mais volátil e mais caro para quem emite?

É aqui que a construção civil entra como protagonista. Boa parte do risco físico mora no ambiente construído: onde se inunda, onde superaquece, onde falha infraestrutura. E boa parte do risco de transição também: energia consumida, materiais escolhidos, emissões incorporadas, operação ineficiente que vira custo recorrente e, no limite, vira “desconto” no valor do imóvel.

Em outras palavras: clima deixa de ser debate e vira custo de capital.

Quando risco vira taxa, o setor aprende rápido

O ponto mais interessante da mudança não é o número em si (7% a 12%). É o mecanismo. O estudo mostra que a exposição ao risco de transição, medida por emissões financiadas, se traduz em uma penalização no preço da liquidez. E isso tende a se amplificar em momentos de estresse.

A tradução para o mundo imobiliário é direta: projetos que medem, comprovam e gerenciam desempenho ficam mais fáceis de financiar, operar e segurar. Projetos que não fazem isso começam a parecer uma aposta. E aposta, em finanças, sempre custa mais caro.

Por isso, o debate sobre construções sustentáveis evoluiu. Ele deixou de ser “o que é o certo a fazer” e passou a ser “o que é racional fazer” quando se quer proteger valor no tempo.

O Brasil tem uma oportunidade grande (e prática)

Existe um traço importante no Brasil: a sustentabilidade na construção nasceu muito puxada pelo setor privado e pelas melhores práticas do mercado. Isso tem um efeito colateral positivo: quando a régua sobe, ela sobe com foco em execução, em canteiro, em operação e em verificação.

É por isso que certificações e processos de terceira parte ganham relevância num cenário em que o capital quer previsibilidade. Construção é, por definição, um sistema complexo: envolve projeto, obra, fornecedores, operação, comportamento do usuário. Quando você coloca tudo isso dentro de um método comparável e auditável, você reduz assimetria de informação. E reduzir assimetria é o primeiro passo para reduzir risco.

Não é sobre “ter um selo”. É sobre criar um caminho em que desempenho vira evidência. E evidência vira confiança.

Da teoria ao detalhe que o investidor entende

Quando falamos em risco climático aplicado à construção, dá para dividir em três dimensões bem concretas:

  • Risco físico: enchentes, ondas de calor, tempestades mais intensas, falhas de infraestrutura. Isso afeta manutenção, seguros, operação e até a habitabilidade do ativo.
  • Risco de transição: custos regulatórios e de mercado para quem emite mais. Aqui entram energia, emissões operacionais, escolha de materiais, refrigerantes, mobilidade e logística.
  • Risco de execução e performance: o risco de prometer e não entregar. E esse, muitas vezes, é o risco mais caro porque ele mina confiança.

Quando o mercado financeiro começa a precificar emissões financiadas em operações de curtíssimo prazo, ele está sinalizando algo maior: o clima está deixando de ser “tema ESG” e virando componente de estabilidade, liquidez e custo de dinheiro.

O que o setor pode fazer agora

Se eu tivesse que resumir em uma frase: medir e comprovar virou estratégia de competitividade.

Para o setor da construção, isso se traduz em ações objetivas:

  • Projetar para conforto e desempenho (passivo primeiro; sistemas eficientes depois).
  • Olhar carbono incorporado e operacional como parte do “custo total” do ativo.
  • Trabalhar resiliência como premissa (e não como aditivo).
  • Estruturar governança de dados na operação: o edifício precisa “contar a sua história”.
  • Adotar ferramentas de verificação independente, principalmente em empreendimentos com tese de longo prazo (fundos, locação, operação intensiva, residenciais com gestão profissional).

No fim, o mercado vai continuar fazendo o que sempre fez: premiar quem reduz incerteza.

A diferença é que agora a incerteza tem nome e sobrenome: risco climático.

 

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por Enzo Tessitore, GBC Brasil

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