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Construções neutras em carbono ainda são minoria no mundo, mas a tendência – e inadiável necessidade – é que elas se tornem cada vez mais presentes em projetos comerciais e residenciais. Entenda por que o conceito de descarbonização é essencial para uma arquitetura verdadeiramente sustentável.

Poluição Ambiental e Construção Civil. Eis uma dupla que anda de mãos dadas e se tornou epicentro de discussões urgentes a nível mundial. A retomada econômica do setor construtivo após a pandemia causou recorde histórico de emissões de gás carbônico na atmosfera. Pode até não parecer, mas essa indústria é responsável, sozinha, por 37% de todo o CO2 liberado no ar, além de consumir 34% da energia produzida no planeta, segundo dados da Organização das Nações Unidas. Não à toa, a sustentabilidade se revela necessidade inexorável quando o assunto é arquitetura. E ela vem acompanhada de temas que não podem mais ser ignorados, a exemplo da descarbonização – série de estratégias para reduzir ou eliminar o uso de materiais, processos e fontes de energia que emitem carbono, com o objetivo de minimizar a liberação de gases do efeito estufa.

Quentíssimo, o assunto foi abordado em palestras do 28º Congresso Mundial de Arquitetos no mês passado, em Copenhague. Sob o mote “futuros sustentáveis”, o evento foi concluído com recomendações para nortear a atuação dos profissionais da área, e uma delas é: “Em tudo o que for construído, a captura de carbono deve exceder a pegada de carbono”. Nesse contexto, termos como “carbono neutro” e “carbono zero” devem se tornar familiares a todos o quanto antes.

“Uma construção carbono zero [do inglês Zero Carbon Building, ou ZCB] é aquela que consegue neutralizar todo o carbono emitido na vida útil do edifício, ou seja, na extração de matéria-prima, na fabricação dos materiais, no canteiro de obras, na operação do edifício e até na demolição e no descarte dos resíduos”, explica o pós-doutor em arquitetura Caio Frederico e Silva, diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB e coordenador do Laboratório de Sustentabilidade de Arquitetura e Urbanismo. Em outras palavras: não é fácil uma construção atender a tantos requisitos e ser completamente neutra em carbono. Ainda assim, o objetivo é dos mais nobres e deve ser mantido como ideal a ser alcançado um dia.

“Há três grandes desafios para encarar nas próximas décadas: a dificuldade de acessar dados sobre os impactos ambientais na produção e distribuição dos materiais de maneira correta e transparente; o desenvolvimento de uma arquitetura bioclimática que minimize ou anule o uso de fontes energéticas para promover conforto ambiental; e a conservação de toda a vida útil do edifício (operação, manutenção e gestão) neutra em carbono”, afirma Roberta Carolina Faria, mestre em arquitetura e urbanismo pela UnB com ênfase na descarbonização da arquitetura.

Outras dificuldades para a disseminação de edifícios carbono zero estão relacionadas à viabilidade econômica. “As estratégias utilizadas para zerar as emissões apresentam um alto investimento inicial. Além disso, faltam incentivos financeiros e políticas públicas que favoreçam a instalação dessas tecnologias”, salienta a pós-doutora em engenharia civil Ana Carolina Passuello, coordenadora do grupo de pesquisa Life Cycle and Innovation for the Built Environment Sustainability, da UFRGS. “É importante, também, capacitar a mão de obra, investir na conscientização pública e criar regulamentações e políticas de construção adequadas”, diz.

Onde ele está

Todo material de construção civil (leia-se aço, cimento, tijolo, cerâmica, madeira, vidro e o que mais é empregado em uma edificação) possui um ciclo de vida que vai da extração da matéria-prima até a saída da fábrica. Esses processos geram o chamado “carbono incorporado” à obra. Quando o edifício está pronto, há um impacto ambiental para que ele funcione, o que dá origem ao “carbono operacional”, relacionado principalmente ao consumo energético (iluminação, conforto térmico, aquecimento de água, entre outros).

Net Zero Carbon Building (NZCB), Zero Carbon Building (ZCB), carbono zero ou carbono neutro são sinônimos usados para denominar construções que neutralizam o carbono operacional e o incorporado, segundo explica a professora Passuello. “Quando é considerado apenas o operacional, utiliza-se o conceito de carbono operacional nulo (Net Zero Operational Carbon)”, afirma. “Ainda há discussão sobre as formas de avaliar o balanço de carbono de edifícios, que pode variar de acordo com o contexto em que estão inseridos”, reforça ela.

Em todo o mundo, uma série de entidades confere diferentes certificados de sustentabilidade às edificações. Uma das mais conhecidas é o Green Building Council (GBC). O escritório brasileiro trabalha principalmente com a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), que avalia diversas dimensões do projeto, em âmbitos social, ambiental e econômico. Uma vez que a obra recebe um selo LEED, é possível pleitear uma certificação “zero energy”. “Nas construções, um terço do carbono é incorporado e o restante está na operação dos edifícios. Por isso, nossa premissa principal é a comprovação de alta eficiência energética, com geração de energia renovável”, esclarece Felipe Faria, CEO do GBC Brasil, que ainda não tem projetos que contabilizam o carbono incorporado na obra.

“Para a avaliação do carbono incorporado de uma edificação, é imprescindível o acesso a informações referentes às emissões de todos os materiais e processos envolvidos ao longo do seu ciclo de vida”, explica Passuello. “É complexo e demanda aperfeiçoamento da indústria da construção civil uma vez que exige uma transformação completa em toda a cadeia produtiva.”

Exemplos ao redor do mundo

Apesar das dificuldades envolvidas na hercúlea tarefa de zerar o carbono nessa área, há quem já possa comemorar o feito. Referência simbólica é o estúdio holandês de arquitetura Powerhouse Company, idealizador de um escritório flutuante autossuficiente em energia e neutro em carbono. Ancorado no porto de Rijnhaven, em Roterdã, o edifício anuncia a chegada de uma nova era e inspira outras obras ao redor do mundo. Segundo o líder de projeto Paul Sanders, o uso de madeira, energia solar, grandes janelas e o sistema de resfriamento do prédio com água do próprio rio são alguns dos destaques do local, que além de sustentável ainda oferece opção de lazer ao público geral, em seus deques e piscina natural.

Outro escritório de arquitetura de destaque no cuidado com o meio ambiente é o americano Skidmore, Owings&Merrill (SOM), que no ano passado zerou as emissões de CO2 do estúdio e ainda criou sua própria ferramenta para calcular o carbono nos projetos que desenvolve. “Devemos começar a olhar para os edifícios como um ecossistema em que todos os aspectos – desde estruturas eficientes até seleções de materiais – contribuam para diminuir a pegada de carbono”, diz a diretora de design Yasemin Kologlu.

A madeira é atualmente o material de construção mais sustentável disponível em escala. As árvores sequestram o CO2 da atmosfera e o armazenam — Sinus Lynge, cofundador do Effekt

Na Austrália, onde os efeitos do aquecimento global são cada vez mais nítidos na natureza, o escritório Breathe faz a diferença com seu time de mais de 30 colaboradores e uma série de projetos carbono zero, tanto residenciais quanto comerciais. “Nos preocupamos profundamente com o planeta e as pessoas. A redução das emissões de carbono tornou-se parte integrante da nossa abordagem”, afirma Tamara Veltre, sócia do estúdio. Em suas criações de arquitetura e design de interiores, o Breathe adota principalmente materiais reciclados, com baixo teor em carbono, ou renováveis, como madeira, cortiça e linho. Eles também limitam o uso de itens que demandam muita energia em sua fabricação, como cimento, aço e alumínio.

Em Copenhague, onde aconteceu o último Congresso Mundial de Arquitetos, o escritório Effekt apresentou um protótipo de residência de madeira, erguida com baixíssimo carbono incorporado e alta eficiência energética, sem precisar recorrer a tecnologias de preços muito elevados”. Já temos a solução para reduzir massivamente nossa pegada climática de novas casas sem comprometer a qualidade e habitabilidade nem quebrar orçamentos. As soluções estão aqui”, defende Sinus Lynge, cofundador do Effekt. “A madeira é atualmente o material de construção mais sustentável disponível em escala. As árvores sequestram o CO2 da atmosfera e o armazenam. Por isso a madeira supera o concreto, o aço e os tijolos quando se trata de impacto climático”, afirma.

Por aqui

Se lá fora a preocupação com o carbono das construções é uma realidade pulsante, no Brasil, o assunto começa a ganhar tração. A startup Noah, por exemplo, criada em 2019, oferece soluções tecnológicas a partir da madeira engenheirada e desponta no cenário da construção civil no país. “A madeira engenheirada é uma solução estrutural que vem se consolidando em países do Hemisfério Norte em função de características como racionalidade, alta precisão e sustentabilidade. Essa tecnologia, conhecida no exterior como mass timber, usa camadas de madeira maciça sobrepostas que podem se transformar em pilares, lajes, vigas e substituir o concreto e o aço na construção de edifícios de até 40 andares”, conta Cintia Valente, CMO e sócia da Noah. A empresa tem dois projetos em fase final de obra, um no Rio Grande do Sul e um em São Paulo, com inaugurações previstas ainda para 2023. E assina, também, o Arvoredo, condomínio residencial recém-lançado no bairro Vila Madalena, na capital paulista. Apesar de não serem carbono zero, os projetos da Noah, pelo simples fato de utilizarem a madeira em suas estruturas, representam uma significativa redução na quantidade de carbono incorporado à obra.

Outro case nacional é o da Container Box, que assina projetos arquitetônicos com reaproveitamento de contêineres. Além de ter se tornado carbono zero em 2021, a empresa desenvolveu uma solução modular especial para as necessidades do setor farmacêutico, que combina eficiência energética, uso de materiais sustentáveis e fontes de energia renovável: tudo com certificação de carbono zero. O cliente inaugural da novidade foi o Instituto Butantan. “O uso de nossa técnica modular em contêineres marítimos utilizados resulta em uma redução de até 90% na pegada de carbono em comparação com a construção tradicional”, diz a diretora de marketing Adriana França. “Para garantir a validação do nosso processo, contratamos uma empresa especializada em gestão ambiental que realiza o cálculo da pegada de carbono. Ela emite relatórios e sugere as medidas necessárias para compensação por meio da compra de créditos de carbono”, completa.

Para além das tecnologias e desafios envolvidos no assunto, uma coisa é unanimidade entre todos os entrevistados: cada um pode começar a fazer a sua parte de maneira simples. “Precisamos nos reeducar. Por exemplo, não utilizar o ar-condicionado o tempo todo. Usar melhor a iluminação natural. Reaproveitar materiais ou escolher aqueles com menor pegada de carbono. Quanto menos carbono jogamos na natureza, mais favorável será a situação do meio ambiente”, diz a professora Roberta Mülfarth, chefe do Departamento de Tecnologia da FAU-USP. “A arquitetura brasileira ficou mundialmente conhecida pela bioclimática, que tinha esses elementos de reconhecer o clima do local e se adaptar a ele, como faziam os arquitetos Rino Levi e Lelé [João Filgueiras]. Edifícios pensados assim podem ter um desempenho energético interessante. Sustentabilidade é um conceito gradativo. Podemos sempre fazer melhor”, finaliza.

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Por Maria Clara Vieira, Via Casa Vogue

 

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