O problema (ainda) não é falta de água

Publicado em 09 . 06 . 2026

Durante muito tempo, a água ocupou um lugar secundário na agenda da construção. Era tratada como um recurso disponível, com baixo custo relativo e pouca necessidade de gestão. Quando o tema ganhava relevância, quase sempre vinha associado a momentos de crise. Passado o pico, voltava ao segundo plano.

Essa lógica não se sustenta mais.

O problema não está necessariamente na disponibilidade, mas na forma como usamos.

Como colocou Rafael Klein, da Enviromix, “não faz mais sentido a gente retirar água da natureza, usar sem critério e devolver ela suja”. O modelo atual ainda opera nesse ciclo. Captamos, tratamos, utilizamos de forma pouco eficiente e devolvemos ao meio ambiente com qualidade inferior. Repetimos isso todos os dias, em escala.

 

O erro está no sistema, não só no consumo

Uma das principais distorções está na forma como a água é aplicada. Em muitos empreendimentos, água potável é utilizada para funções que não exigiriam esse padrão, enquanto o esgoto segue sendo tratado como descarte, e não como recurso.

Esse modelo gera desperdício nas duas pontas. Primeiro no uso. Depois na saída.

Ao mesmo tempo, o tema ainda não ocupa o espaço que deveria. Como observou Mário Borba, da Canumã, “a água ainda parece ser o patinho feio quando a gente fala de sustentabilidade”. Enquanto eficiência energética avançou com métricas, metas e pressão de mercado, a gestão hídrica ainda aparece de forma fragmentada. O resultado é um sistema que funciona, mas funciona mal.

 

Tecnologia já não é a barreira

As soluções existem e estão disponíveis. Monitoramento em tempo real, sistemas de tratamento descentralizado, estratégias de retenção e reaproveitamento já fazem parte da realidade de diversos empreendimentos.

Em muitos casos, os ganhos são imediatos.

Um exemplo apresentado mostra bem isso. Um condomínio que tinha uma conta de dez mil reais por mês reduziu esse valor para menos de cem reais após implementar monitoramento e gestão ativa do consumo. O ponto não foi uma grande intervenção física. Foi a capacidade de enxergar o problema no momento em que ele acontece e agir rapidamente.

Isso muda a lógica.

O desperdício deixa de ser invisível. E, quando aparece, deixa de ser aceitável.

 

O que precisa mudar

O maior desafio não está na tecnologia nem no investimento. Está na forma como o setor enxerga a água.

Durante anos, perdas, vazamentos e uso ineficiente foram absorvidos como parte do funcionamento normal dos empreendimentos. Custos diluídos, pouca medição e baixa pressão por desempenho mantiveram esse padrão.

Esse cenário está mudando. A água está ficando mais cara. A regulação está mais exigente. E a gestão hídrica começa a entrar na agenda operacional dos empreendimentos com mais força.

Isso exige uma mudança direta de postura. Como resumiu Rafael Klein, da Enviromix, “não fazer nada sai mais caro”.

E esse custo não é só financeiro. É operacional. É ambiental. E, cada vez mais, é estratégico.

 

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Artigo criado com base na palestra “Inovação e tecnologia que reduzem custos na gestão de consumo de água e no tratamento de efluentes”, apresentada por Mário Borba (Canumã), Osvaldo Barbosa (ADS-Tigre) e Rafael Klein (Enviromix).

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