O que sustenta a sustentabilidade em grandes obras

Publicado em 02 . 06 . 2026

Projetos de infraestrutura sempre operaram com uma premissa implícita. Quanto maior a obra, maior o impacto. Como se a escala justificasse o dano, desde que ele fosse compensado depois.

Mas essa lógica começa a mudar.

No caso apresentado por Tatiana Kodama, da Acciona Construcción, o ponto de partida é outro. Sustentabilidade não entra como mitigação. Entra como estrutura de decisão. Como ela coloca, “sustentabilidade não se reduz apenas a cuidar do meio ambiente, mas de todo o ecossistema”.

Isso muda o papel do gerenciamento ambiental. Ele deixa de ser uma camada de controle e passa a ser parte do próprio modelo de execução.

 

Escala amplia impacto. E exige sistema

A linha 6 do metrô de São Paulo não é um projeto comum. São mais de 15 quilômetros de extensão, múltiplas frentes de obra, milhares de trabalhadores e uma operação simultânea de alta complexidade.

Nesse contexto, qualquer decisão ganha escala.

Uma escolha operacional simples, quando multiplicada por milhares de pessoas e atividades diárias, passa a ter impacto relevante. O mesmo vale para erro. Pequenas ineficiências deixam de ser pontuais e passam a ser sistêmicas.

Por isso, o gerenciamento ambiental não pode depender de ações isoladas.

Ele precisa operar como sistema. Licenciamento, monitoramento, controle de emissões, gestão de resíduos, uso de recursos hídricos e relacionamento com o entorno deixam de ser frentes independentes e passam a ser parte de uma mesma lógica operacional.

Essa integração aparece na prática.

O projeto incorpora padrões internacionais, estrutura de auditoria contínua, rastreabilidade de processos e metas claras de desempenho. Não como formalidade, mas como condição para manter controle em um ambiente de alta variabilidade.

 

Resultado não vem da tecnologia. Vem da consistência

Os números apresentados são relevantes. Redução de emissões, reuso de água, recuperação de áreas, reaproveitamento de resíduos. Mas isoladamente, eles dizem pouco.

O que sustenta esses resultados é a forma como o sistema opera.

A redução de emissões, por exemplo, não vem de uma única solução, mas da combinação de logística otimizada, uso de equipamentos mais eficientes e mudança na matriz energética dos canteiros. O mesmo acontece com a água, onde o reuso deixa de ser exceção e passa a ser parte do processo.

Essa lógica também aparece na gestão de resíduos.

A revalorização de materiais deixa de ser uma ação corretiva e passa a ser pensada desde a origem. Segregação, rastreabilidade e destino são definidos como parte do fluxo da obra, não como etapa posterior. Isso permite alcançar índices que fogem do padrão do setor.

Mas talvez o ponto mais relevante não esteja na tecnologia nem nos processos.

Está nas pessoas.

Como reforça Tatiana, “é necessário o compromisso de todos”. Em um projeto com milhares de trabalhadores, o desempenho ambiental depende da capacidade de transformar diretriz em comportamento. E isso exige treinamento, acompanhamento e repetição.

Sem isso, o sistema não se sustenta.

 

O que muda quando o modelo muda

O gerenciamento ambiental em infraestrutura sempre existiu. O que muda aqui não é a existência das ferramentas, mas a forma como elas são usadas.

Elas deixam de responder ao impacto e passam a antecipá-lo.

Relatórios deixam de ser registro e passam a ser ferramenta de decisão. Monitoramento deixa de ser controle e passa a ser ajuste em tempo real. Indicadores deixam de ser meta e passam a orientar a operação.

Essa mudança altera o resultado final. O impacto não desaparece. Mas deixa de ser desorganizado.

E, talvez mais importante, deixa de ser tratado como inevitável.

 

O que esse caso mostra

Projetos dessa escala sempre terão impacto. Essa não é a discussão.

A diferença está em como esse impacto é gerido.

O caso mostra que escala não é justificativa para ineficiência. Pelo contrário. Quanto maior o projeto, maior a necessidade de estrutura, controle e consistência.

E isso reposiciona o papel da sustentabilidade.

Ela deixa de ser obrigação e passa a ser estratégia de execução.

 

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Artigo criado com base na palestra “Sustentabilidade em Grande Escala: Estratégias de Gerenciamento Ambiental em Infraestruturas”, apresentada por Tatiana Kodama (Acciona Construcción).

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