Quando faz muito calor, qual é o prejuízo? A pergunta parece simples. A resposta, não.
Parte da conta aparece imediatamente: mais energia para a climatização, maior consumo de água e queda na produtividade de quem trabalha ao ar livre. Outra parte se espalha por áreas que raramente são somadas: internações, afastamentos, acidentes de trabalho, interrupções de serviços, danos à infraestrutura, perdas agrícolas, incêndios e seguros.
Talvez por isso, o calor extremo tenha permanecido por tanto tempo como um risco econômico pouco visível.
A Swiss Re, uma das maiores resseguradoras do mundo, dedicou um dos capítulos de seu relatório de riscos emergentes de 2025 justamente ao tema. A conclusão é difícil de ignorar: eventos extremos de calor representam um risco crescente não apenas para a saúde, mas para propriedades, infraestrutura, energia, agricultura, seguros e diferentes setores da economia.
A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 489 mil mortes relacionadas ao calor ocorram por ano, tomando como referência estudos do período entre 2000 e 2019. O calor já está entre as principais causas de mortes relacionadas a eventos meteorológicos.
É uma tragédia humana antes de ser uma questão financeira.
Mas é também uma questão financeira.
Uma inundação costuma produzir uma imagem bastante clara do prejuízo. Água dentro de casas e lojas, carros destruídos, ruas interrompidas.
O calor é diferente.
Um trabalhador pode produzir menos naquele dia. Outro pode precisar de atendimento médico. Uma empresa aumenta o consumo de eletricidade. Uma rede elétrica precisa responder a uma demanda extraordinária. Um equipamento falha. Um incêndio encontra condições mais favoráveis para se espalhar.
As perdas existem, mas chegam por caminhos diferentes.
É uma das razões pelas quais o setor de seguros passou a olhar com mais atenção para o tema. A análise da Swiss Re sobre calor extremo aponta possíveis impactos sobre seguros de vida e saúde, acidentes de trabalho, responsabilidade civil, propriedades e atividades especializadas, além de efeitos indiretos sobre infraestrutura e cadeias produtivas.
A lógica muda quando essas contas começam a ser vistas em conjunto.
O que parecia apenas mais um dia muito quente passa a aparecer como risco operacional.
A Organização Internacional do Trabalho estimou que, até 2030, o estresse térmico poderá resultar na perda equivalente a 2,2% das horas de trabalho no mundo, algo comparável a 80 milhões de empregos em tempo integral.
O cálculo parte de premissas específicas, inclusive um cenário de aquecimento global limitado a 1,5°C até o fim do século, e deve ser lido como projeção, não como previsão inevitável.
A construção está particularmente exposta.
Segundo a OIT, o setor poderá responder por cerca de 19% das horas de trabalho globais perdidas devido ao estresse térmico no cenário analisado, atrás apenas da agricultura. Trabalho físico, exposição ao sol e ambientes pouco protegidos tornam o canteiro especialmente vulnerável.
Isso leva a discussão sobre calor para um lugar muito concreto.
Um empreendimento pode incorporar soluções sofisticadas para reduzir seu consumo futuro de energia e, durante a própria obra, operar com equipes expostas a condições térmicas inadequadas.
Construção de alto desempenho também precisa olhar para o processo de construir.
Quando a temperatura sobe, a resposta mais imediata é refrigerar o ambiente. Em muitos casos, é indispensável.
O problema aparece quando milhões de equipamentos fazem isso ao mesmo tempo.
A International Energy Agency estima que a climatização represente cerca de 10% do consumo anual de eletricidade, mas possa responder por aproximadamente 30% da demanda de pico. Em períodos de calor intenso, essa concentração pressiona os sistemas elétricos justamente quando a necessidade de refrigeração se torna maior.
Em 2024, mais de 40 países que, juntos, representavam quase 70% da demanda elétrica mundial atingiram novos recordes de demanda de pico durante ondas de calor. O Brasil estava entre eles.
Segundo uma análise da IEA sobre ondas de calor e demanda elétrica, cada aumento de 1°C na temperatura média diária durante os períodos avaliados pode acrescentar aproximadamente 3,6 GW à demanda brasileira de eletricidade.
A Empresa de Pesquisa Energética também passou a incorporar explicitamente esse efeito ao planejamento. Em 2026, a EPE destacou que ondas de calor podem elevar os picos de demanda devido à maior necessidade de climatização e que essa relação precisa entrar nas decisões sobre expansão e operação do sistema elétrico.
Há aqui um círculo difícil.
Quanto mais quente fica, maior a necessidade de climatização. Quanto maior a carga de climatização, maior a pressão sobre a rede que precisamos manter funcionando justamente nos momentos mais críticos.
Por isso, eficiência deixa de ser apenas uma forma de reduzir a conta mensal e se torna parte da resiliência.
Um episódio ocorrido em Londres ajuda a dar dimensão prática ao problema.
Em julho de 2022, durante uma onda de calor que levou as temperaturas britânicas a superar 40°C, um data center do Google sofreu falha simultânea em múltiplos sistemas redundantes de refrigeração. Parte dos servidores precisou ser desligada e serviços ficaram indisponíveis para clientes.
O relatório posterior do Google Cloud associou o incidente à combinação entre falhas dos equipamentos de refrigeração e temperaturas externas elevadas.
Não se trata de concluir que todo data center está ameaçado sempre que a temperatura sobe. O caso mostra outra coisa.
Infraestruturas projetadas para alta disponibilidade também trabalham dentro de limites ambientais. Se as condições externas passam a ultrapassar com maior frequência aquilo que foi considerado no projeto, margens de segurança podem diminuir.
A mesma pergunta vale, em escalas diferentes, para hospitais, escolas, residências, escritórios e centros logísticos.
Projetamos para qual temperatura? E o que acontece quando ela é ultrapassada?
A resposta mais simples seria instalar equipamentos maiores.
Não necessariamente é a melhor.
Um edifício que depende cada vez mais de potência mecânica para manter condições habitáveis pode elevar seus custos operacionais e aumentar sua vulnerabilidade a falhas de energia justamente durante episódios extremos.
É por isso que estratégias conhecidas há muito tempo voltam a ganhar importância: orientação adequada, proteção solar, envoltórias de melhor desempenho, redução de ganhos internos de calor, ventilação quando as condições externas permitem, superfícies de menor absorção térmica e vegetação.
Nenhuma delas elimina, sozinha, a necessidade de climatização em todos os edifícios e climas. Mas podem diminuir a carga necessária para manter o ambiente em condições adequadas.
O Banco Mundial, em seu trabalho sobre calor urbano extremo na América Latina e no Caribe, destaca que redes elétricas, transportes, moradias e escolas da região frequentemente não foram projetados para condições extremas. Entre as respostas aparecem mais áreas verdes, sombra, superfícies reflexivas e técnicas de resfriamento passivo nos edifícios.
Não é uma discussão sobre abandonar tecnologia.
É sobre precisar de menos dela para entregar o mesmo resultado.
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes levantados pela indústria de seguros.
Durante décadas, riscos físicos associados a imóveis foram pensados principalmente a partir de eventos capazes de destruir algo: enchentes, incêndios, tempestades, terremotos. Mas o calor nem sempre deixa uma parede caída e, mesmo assim, pode afetar o ativo.
Temperaturas extremas aumentam custos de climatização, pressionam equipamentos, reduzem produtividade, criam problemas de saúde para ocupantes e trabalhadores e podem provocar interrupções em atividades que dependem de controle rigoroso de temperatura.
Também existem efeitos indiretos.
A Swiss Re destaca a relação entre calor, secas e incêndios. Entre 2015 e 2024, incêndios florestais provocaram aproximadamente US$ 78,5 bilhões em perdas seguradas no mundo, segundo a resseguradora.
Os incêndios de Los Angeles de janeiro de 2025 mostraram a escala que esses eventos podem alcançar. Uma análise da UCLA Anderson Forecast estimou perdas de propriedades e capital entre US$ 76 bilhões e US$ 131 bilhões, com perdas seguradas que poderiam chegar a US$ 45 bilhões. Os próprios autores destacam que são estimativas baseadas em premissas e sujeitas a revisão.
Calor não foi a única causa desses incêndios, nem seria correto estabelecer uma relação direta entre uma onda de calor e qualquer evento de fogo.
O que importa é a cadeia de risco. Temperatura, seca, vegetação, vento, ocupação urbana e infraestrutura podem se combinar. O prejuízo final não pertence necessariamente a uma única categoria.
Esse raciocínio aproxima o tema da construção sustentável.
Por muito tempo, eficiência energética foi apresentada principalmente como uma oportunidade de reduzir consumo e emissões. Continua sendo.
Mas um edifício eficiente também pode precisar de menos potência para manter condições adequadas durante um episódio de calor. Estratégias passivas podem aumentar o tempo em que os ambientes permanecem utilizáveis caso a climatização deixe de funcionar. Sistemas de medição ajudam a identificar sobrecargas antes que elas se tornem falhas. Árvores e áreas verdes podem reduzir exposição solar e temperaturas locais.
São benefícios de operação e resiliência, e começam a interessar a quem olha um edifício pelo risco.
O proprietário quer saber quanto custará operar o ativo.
O ocupante quer saber se conseguirá permanecer nele com conforto e segurança.
O gestor precisa entender até onde os sistemas conseguem responder.
O banco e o investidor começam a perguntar se aquele desempenho continuará adequado durante décadas de operação.
E a seguradora precisa compreender a exposição real ao risco.
A pergunta ambiental passa, mais uma vez, a encontrar a pergunta financeira.
Existe uma questão adicional.
Edifícios são projetados com dados climáticos, só que permanecem em operação durante décadas.
Uma construção entregue hoje poderá continuar sendo utilizada em 2050, 2060 ou além. Se a frequência, duração e intensidade das ondas de calor mudarem nesse período, utilizar apenas o clima histórico como referência pode subestimar parte das condições que o ativo enfrentará.
Não significa que exista uma temperatura futura única e perfeitamente conhecida para cada endereço.
Não existe.
Projeções climáticas carregam incertezas e variam conforme cenário, metodologia e escala; mas a incerteza não é argumento para ignorar a questão, e sim argumento para testar.
O que acontece com o edifício em condições mais quentes que aquelas usadas no cenário de referência? Quanto cresce a carga térmica? Há capacidade disponível? Quais ambientes deixam primeiro de atender às condições previstas? Por quanto tempo permanecem utilizáveis se houver falha de energia?
Análises de sensibilidade não preveem o futuro, mas podem mostrar onde está a vulnerabilidade.
O calor extremo tem uma característica ingrata. Nem sempre produz uma fotografia dramática.
Uma fachada continua de pé. O escritório parece igual. A cidade retoma sua rotina quando a temperatura cai.
Parte do prejuízo, porém, já aconteceu.
A conta de energia aumentou. O trabalhador produziu menos. Alguém precisou de atendimento médico. Um sistema operou perto do limite. Uma empresa interrompeu uma atividade. Uma rede elétrica enfrentou um pico extraordinário de demanda.
Somados, esses efeitos deixam de ser pequenos.
O Banco Mundial estima que, sem respostas adequadas, as perdas econômicas associadas ao calor em grandes centros urbanos da América Latina e do Caribe poderão chegar a 5% ou mais do PIB local nas próximas décadas. A instituição também estima que até 70% dos trabalhadores da região estejam expostos ao calor extremo.
Não é uma previsão para cada cidade brasileira. São estimativas regionais construídas a partir de cenários e metodologias específicos.
Servem para dimensionar a ordem do problema.
Nenhum edifício resolve sozinho o calor de uma cidade. A resposta passa por arborização, planejamento urbano, infraestrutura elétrica, transporte, saúde pública, condições de trabalho, sistemas de alerta e redução das emissões que continuam elevando as temperaturas globais.
Mas os edifícios são uma parte importante dessa resposta. É dentro deles que passamos grande parte do tempo. É neles que uma parcela crescente da eletricidade será utilizada para refrigeração. É também neles que decisões tomadas durante o projeto podem diminuir ou aumentar nossa dependência de energia para atravessar os dias mais quentes.
Talvez essa seja a mudança mais importante na forma de olhar para o tema.
Conforto térmico continua sendo conforto. Mas, diante do calor extremo, ele também passa a significar saúde, produtividade, continuidade de operação, pressão sobre a rede elétrica e risco financeiro.
Durante muito tempo, o calor foi tratado como uma condição externa à qual o edifício deveria responder.
Agora começamos a enxergar o outro lado da conta: quanto custa um edifício que não consegue responder quando o dia deixa de ser apenas quente e passa a ser extremo?
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por Enzo Tessitore, GBC Brasil