Paisagismo sustentável no Parque Global: o verde que precisa funcionar

Publicado em 04 . 08 . 2026

Espécies nativas, irrigação planejada e integração entre disciplinas mostram que a presença do verde só se sustenta quando o projeto considera biodiversidade, água e operação desde o início.

Nem todo jardim é sustentável. A presença de plantas pode valorizar um empreendimento, amenizar a paisagem construída e tornar os espaços mais agradáveis. Mas, sozinha, não garante eficiência no uso da água, contribuição para a biodiversidade ou condições para que a vegetação permaneça saudável ao longo dos anos.

“O mercado de paisagismo no Brasil é principalmente decoração. Nada contra a decoração, mas ela é só uma das camadas do paisagismo sustentável”, afirma o paisagista Ricardo Cardim.

Essa diferença orientou uma sessão da Greenbuilding Brasil sobre o Parque Global, complexo de grande escala implantado na região da Marginal Pinheiros, em São Paulo. Cardim participou da conversa ao lado de Fernando Haddad, da Rain Bird, e Danny Braz, da Regatec. O sessão mostrou que projetos paisagísticos dessa dimensão dependem de uma combinação pouco visível para quem percorre os jardins: conhecimento ecológico, engenharia, automação e planejamento operacional.

No Parque Global, o paisagismo reúne áreas extensas, diferentes níveis das edificações e floreiras instaladas até nos andares mais altos das torres. Cada uma dessas situações está exposta a condições próprias de incidência solar, vento, sombra, umidade, profundidade do solo e disponibilidade de água.

Não existe, portanto, um único jardim. Existem diversos microclimas dentro do mesmo empreendimento.

 

O verde precisa entrar no começo do projeto

Durante muito tempo, o paisagismo foi uma das últimas disciplinas a chegar ao desenho de um edifício. Recebia as áreas restantes, muitas vezes com pouca profundidade de solo, limitações para o plantio de árvores e dificuldades para acomodar redes de irrigação.

Esse modelo começa a mudar. Empreendimentos com vegetação mais densa exigem que arquitetura, paisagismo, instalações e operação conversem desde as primeiras definições. Caso contrário, as escolhas feitas em uma etapa podem inviabilizar ou encarecer as soluções necessárias mais adiante.

“O sucesso de projetos dessa dimensão só é possível quando a irrigação de paisagismo é tratada como projeto desde a sua concepção, da mesma forma que os projetos elétricos e hidráulicos”, observa Fernando Haddad.

No Parque Global, essa integração foi necessária para atender jardins distribuídos entre torres, áreas comuns e floreiras em diferentes alturas. O projeto de irrigação precisou acompanhar a escolha das espécies e as condições particulares de cada ambiente.

Uma área exposta ao vento perde umidade de forma diferente de um jardim sombreado. Plantas com origens distintas também apresentam necessidades hídricas próprias. O tipo de solo, sua profundidade e a incidência de sol alteram novamente a equação.

Irrigar, nesse contexto, não é simplesmente conduzir água até um canteiro. É compreender essas diferenças e evitar que todo o paisagismo receba o mesmo tratamento.

 

Uma infraestrutura feita para não aparecer

Em um jardim bem resolvido, as plantas são protagonistas. Tubulações, válvulas, bombas, sensores, aspersores e controladores devem permanecer discretos. Isso não significa que sejam secundários.

A infraestrutura de irrigação é uma das condições para que a paisagem projetada sobreviva à inauguração. Sua função é fornecer água com regularidade e precisão, sem interferir na experiência dos usuários e sem produzir desperdícios que poderiam ser evitados.

“Quando se fala de irrigação de paisagens, as pessoas pensam em jogar água em um canteiro ou em um vaso. Em um projeto com a escala de uma cidade, os desafios são outros”, afirma Haddad.

Esses desafios incluem as variações de microclima, a incidência solar, o vento, as áreas de sombra, os diferentes tipos de solo e as características das espécies escolhidas pelo paisagismo. A divisão do empreendimento em setores permite definir tempos e volumes de irrigação mais adequados para cada situação.

Sensores, aspersores de precisão e controladores automáticos ajudam a entregar “a quantidade de água certa no local certo, no momento certo”, segundo Haddad. O objetivo não é substituir o conhecimento de paisagistas, projetistas e operadores, mas transformar esse conhecimento em comandos mais precisos.

Automatizar um sistema mal dimensionado não resolve o problema. Pode apenas tornar o desperdício mais constante.

 

Tecnologia a serviço da operação

O teste de um projeto paisagístico começa depois da entrega. As plantas crescem, as condições climáticas variam, os equipamentos se desgastam e as equipes responsáveis pela manutenção mudam. O jardim precisa responder a todas essas transformações.

No Parque Global, o sistema de controle acompanha dados climáticos e permite ajustar os períodos de irrigação conforme as mudanças de temperatura. O monitoramento remoto também ajuda a identificar falhas em pontos que não seriam facilmente inspecionados todos os dias.

Danny Braz dá um exemplo concreto: uma floreira localizada no 40º andar pode deixar de receber água ou apresentar um vazamento sem que o problema seja imediatamente percebido no térreo.

“Se no 40º andar existe uma floreira que não está sendo irrigada ou apresenta algum problema, eu consigo saber disso remotamente”, explica.

A informação reduz o tempo entre a falha e a intervenção. Também permite que a equipe de manutenção chegue ao local sabendo melhor o que deve procurar.

Essa capacidade é especialmente importante em grandes empreendimentos. Quanto maior a área verde e mais complexa sua distribuição, mais difícil se torna depender apenas de rondas presenciais ou dos primeiros sinais visíveis de estresse da vegetação.

Braz observa que a irrigação nem sempre foi tratada como uma disciplina autônoma nos projetos imobiliários. Nas últimas duas décadas, passou a aparecer com maior frequência desde a concepção, ao lado de sistemas hidráulicos, elétricos, de transporte vertical e de comunicação.

A mudança acompanha o aumento da presença do verde nos empreendimentos. Quanto mais ambicioso é o paisagismo, maior deve ser o cuidado com os recursos necessários para mantê-lo.

 

Biodiversidade não se resume à quantidade de plantas

A eficiência hídrica é apenas uma parte do paisagismo sustentável. Outra questão decisiva está na escolha das espécies e em sua relação com o território.

Plantas não são elementos isolados. Resultam de milhões de anos de interação com o clima, o solo, os animais e outras formas de vida. Um jardim pode ter grande diversidade visual e, ainda assim, oferecer pouca contribuição ecológica se for composto por espécies sem relação com os ecossistemas locais.

Cardim defende que o paisagismo brasileiro incorpore de maneira mais consistente a flora nativa, não apenas por seu valor estético, mas pelas funções que pode desempenhar dentro da cidade.

“O green building deve representar a integração entre a biodiversidade nativa ancestral e a eficiência em benefícios ambientais”, afirma.

No Parque Global, o projeto buscou referências na Mata Atlântica e incluiu espécies frutíferas nativas, como grumixama, araçá, cereja-brasileira, cabeludinha e pitanga. A proposta não foi reproduzir uma mata em sentido literal, mas aproveitar o paisagismo para recuperar parte das relações ecológicas e culturais associadas a essa vegetação.

O empreendimento está próximo de áreas verdes como os parques Burle Marx e Alfredo Volpi. Na avaliação de Cardim, sua vegetação pode contribuir para uma conexão entre esses fragmentos, favorecendo o deslocamento da fauna e o fluxo de espécies.

“Quando a gente coloca aqui Mata Atlântica e Cerrado, restaura funções ecológicas e cria possibilidades de fluxo de fauna, flora e material genético”, explica.

Trata-se de uma contribuição localizada e sujeita aos limites de um empreendimento urbano. Ainda assim, é uma abordagem diferente daquela que trata o jardim apenas como composição visual.

 

Jardins para entrar, tocar e reconhecer

Os pomares de espécies nativas também procuram estabelecer uma relação mais direta entre as pessoas e a vegetação. Em vez de jardins observados à distância, o projeto propõe espaços de convivência, experimentação e descoberta.

Cardim usa a expressão “jardins entráveis”, atribuída a sua sócia, Alessandra, para descrever áreas verdes nas quais as pessoas possam caminhar, tocar as plantas, colher frutas e criar uma relação cotidiana com a natureza.

“A gente tem que abandonar essa ideia de que não pode pisar na grama, de que a criança não pode subir na árvore ou pegar uma fruta no pé. Hoje a gente precisa interagir e conviver”, afirma.

Essa interação tem também uma dimensão educativa. Muitas espécies brasileiras desapareceram dos quintais, das ruas e do repertório cotidiano das cidades. Ao reintroduzi-las nos empreendimentos, o paisagismo permite que crianças e adultos reconheçam frutas, árvores, aves e relações ecológicas que dificilmente encontrariam em jardins convencionais.

“A gente precisa mostrar, dentro das cidades, o que existe fora delas para que as pessoas queiram preservar essa natureza”, diz Cardim.

Conhecer não garante, por si só, a conservação. Mas é difícil atribuir valor àquilo que permanece distante, abstrato ou sem nome.

 

Espaço para árvores de verdade

O avanço desse modelo ainda encontra obstáculos dentro da arquitetura e da engenharia. Plantas de maior porte precisam de solo suficiente, áreas permeáveis e espaço para o desenvolvimento das raízes. Árvores capazes de colaborar com o sombreamento, a regulação do microclima e a infiltração da chuva não cabem em qualquer floreira.

Cardim aponta que parte dos projetos ainda segue referências das décadas de 1970 e 1980, quando o paisagismo costumava ocupar uma posição periférica no edifício.

“Durante muito tempo, o paisagismo foi tratado como o rodapé do prédio, uma pequena decoração. Agora ele passa a ser um dos protagonistas para a saúde das pessoas, das cidades e dos ecossistemas”, afirma.

A mudança exige negociação entre disciplinas. Para plantar árvores de maior porte, pode ser necessário rever lajes, estruturas, impermeabilização, drenagem e profundidade do solo. Para infiltrar água da chuva, é preciso preservar áreas permeáveis. Para manter uma vegetação densa, devem existir acesso, irrigação e condições de manutenção.

Não basta desenhar mais verde. É necessário reservar espaço físico e recursos técnicos para que ele se desenvolva.

 

Engenharia e natureza do mesmo lado

A sessão mostrou que engenharia e natureza não precisam ser tratadas como forças opostas. Em um projeto urbano, a engenharia pode criar condições para que processos naturais ocorram dentro de um ambiente intensamente construído.

“A gente tende a pensar a engenharia e a natureza de uma forma separada. Elas precisam caminhar de mãos dadas”, afirma Haddad. Para ele, as soluções técnicas devem entregar funcionalidade sem ignorar os ciclos climáticos e as características ecológicas do lugar.

Essa aproximação não elimina as contradições próprias de um grande empreendimento imobiliário. Também não permite considerar sustentável qualquer projeto apenas porque possui jardins extensos. A contribuição do paisagismo precisa ser avaliada pela qualidade das escolhas, pelo uso dos recursos e pela capacidade de manter os resultados ao longo do tempo.

O Parque Global oferece elementos para esse debate. Mostra que o verde urbano depende de decisões tomadas muito antes do plantio e de uma infraestrutura que continuará trabalhando quando a obra já estiver concluída.

O que aparece são árvores, pomares, jardins e floreiras. Por trás deles estão o estudo dos ecossistemas, a coordenação entre projetos, o controle da água e o planejamento da operação.

É essa estrutura, quase sempre fora de vista, que determina se o paisagismo será apenas uma imagem de lançamento ou uma parte efetiva da cidade.

 

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Conteúdo elaborado a partir da sessão “A reconexão entre cidade e natureza através do paisagismo sustentável no Parque Global”, apresentada na Greenbuilding Brasil.

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