Resíduo não é inevitável. É decisão de projeto (ou a falta dela)

Publicado em 05 . 05 . 2026

Existe uma ideia confortável no setor de que resíduo é parte inevitável do processo construtivo. Algo inerente à obra, à operação e, no limite, à própria atividade humana. O máximo que se pode fazer, dentro dessa lógica, é organizar melhor a destinação. Essa leitura, no entanto, simplifica demais um problema que é, na essência, de projeto e de processo. O gerenciamento de resíduos não começa na caçamba. Ele começa muito antes, na forma como o edifício é concebido, detalhado e executado.

Ao tratar do tema, Augusto Azevedo da Silva, sócio da ID4 Arquitetura e Meio Ambiente, faz uma observação que ajuda a reposicionar a discussão: “ninguém está na obra para gerenciar resíduo, está para construir”. O ponto não é eliminar o resíduo como subproduto da atividade, mas entender que a forma como ele aparece, em volume e em qualidade, é resultado direto das decisões tomadas ao longo do processo.

 

O problema não começa na obra

Quando o resíduo passa a ser tratado apenas na etapa de destinação, o problema já aconteceu. Ele nasce na escolha do sistema construtivo, na definição de materiais, na ausência de compatibilização entre disciplinas e, principalmente, na distância entre quem projeta e quem executa. É comum encontrar projetos com alto nível de detalhamento em fluxos, áreas técnicas e ocupação, mas que não incorporam uma lógica clara para o armazenamento e a movimentação de resíduos, tanto durante a obra quanto na operação. O resultado é previsível: soluções improvisadas, espaços insuficientes e impacto direto na eficiência do edifício.

Essa desconexão aparece com ainda mais força quando o tema é analisado pelo viés econômico. Há uma percepção recorrente de que o custo do resíduo já está contemplado na obra, diluído na planilha e, portanto, resolvido. O que essa leitura ignora é que o custo não está apenas na destinação, mas na perda de material, no retrabalho, na interrupção de atividades e na quebra de fluxo produtivo. Cada parada não planejada para limpeza, cada mutirão improvisado, representa um desvio do processo original. Como observa Augusto, sem organização adequada, “a obra pode inclusive parar para gerenciar resíduo”.

Além disso, há um segundo impacto menos evidente, mas igualmente relevante: o custo de destinar mal. A mistura de resíduos elimina qualquer possibilidade de reaproveitamento, encarece o processo e transfere o problema para a etapa seguinte. O que poderia ser tratado como insumo passa a ser tratado como descarte. Nesse sentido, o resíduo deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a ser um indicador claro de ineficiência.

 

Quando o problema chega na operação

Do ponto de vista ambiental, a discussão também costuma parar antes do necessário. A emissão de manifestos de transporte e o envio para áreas de triagem são frequentemente tratados como etapa final do processo. No entanto, grande parte dessas áreas não representa o destino definitivo, mas apenas um ponto intermediário. O material ainda precisa ser processado e, idealmente, reinserido na cadeia produtiva. Isso amplia a responsabilidade do gerador, que deixa de ser apenas o ponto de origem e passa a ser parte ativa do ciclo completo.

Se há um elemento que atravessa todas essas camadas, ele não é técnico, mas humano. A gestão de resíduos depende diretamente da capacidade de engajar e capacitar as pessoas envolvidas no processo. Da equipe de projeto à execução em obra, passando pela operação, a compreensão sobre o que está sendo feito e por que está sendo feito determina o resultado. Sem esse alinhamento, mesmo soluções tecnicamente adequadas perdem eficácia. Augusto sintetiza essa dimensão ao afirmar que “o item fundamental no processo de gestão de resíduos são as pessoas”.

Esse ponto se torna ainda mais crítico quando o olhar se desloca da obra para a operação das edificações. A complexidade aumenta, o número de usuários se amplia e a diversidade de resíduos cresce. A coleta seletiva, que deveria ser um procedimento básico, passa a depender de fatores como localização dos pontos de descarte, clareza na comunicação e facilidade de uso. Quando esses elementos não são considerados no projeto, a operação tende a corrigir de forma adaptativa, com perda de eficiência e aumento de custo.

 

Resíduo como indicador de projeto

A dificuldade de destinação correta não está apenas no comportamento do usuário, mas na forma como o ambiente foi estruturado. Se o fluxo de resíduos não acompanha o fluxo de pessoas, o sistema deixa de funcionar. A distância entre pontos de descarte, a falta de visibilidade das áreas de coleta e a ausência de espaços adequados para armazenamento comprometem a operação desde o início. O problema, novamente, não está na etapa final, mas na origem.

No fim, o gerenciamento de resíduos funciona como um bom indicador da maturidade do projeto. Obras organizadas tendem a gerar menos desperdício. Projetos bem coordenados reduzem perdas e facilitam a operação. Edificações que incorporam essa lógica desde o início apresentam maior eficiência ao longo do tempo. O contrário também é verdadeiro. Volume excessivo de resíduos, dificuldade de segregação e problemas na destinação apontam para falhas de integração entre as etapas.

A discussão sobre resíduos, portanto, não é acessória. Ela atravessa o projeto, a construção e a operação. E talvez o principal desafio do setor seja abandonar a ideia de que resíduo é inevitável, para reconhecer que ele é, em grande parte, resultado de decisões que poderiam ter sido diferentes.

 

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Conteúdo criado com base na palestra “Gerenciamento de resíduos no processo construtivo e na operação de edificações: oportunidade e desafios”, apresentada por Augusto Azevedo da Silva, sócio da ID4 Arquitetura e Meio Ambiente.

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